O Acordo de Quebec foi um acordo secreto entre o Reino Unido e os Estados Unidos que delineava os termos para o desenvolvimento coordenado da ciência e engenharia relacionadas à energia nuclear e, especificamente, às armas nucleares. Foi assinado por Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt em 19 de agosto de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, na Conferência de Quebec em Quebec, Quebec, Canadá.
O Acordo de Quebec estipulava que os Estados Unidos e o Reino Unido uniriam seus recursos para desenvolver armas nucleares, e que nenhum dos países as usaria contra o outro, nem contra outros países sem consentimento mútuo, tampouco repassaria informações sobre elas a terceiros. Também concedia aos Estados Unidos o poder de veto sobre usos comerciais ou industriais da energia nuclear pelo Reino Unido no pós-guerra. O acordo fundiu o projeto britânico Tube Alloys com o Projeto Manhattan, e criou o Comitê de Política Combinada para controlar o projeto conjunto. Embora o Canadá não fosse signatário, o acordo previa a designação de um representante canadense no Comitê de Política Combinada, em vista da contribuição do Canadá para o esforço.
Os cientistas britânicos desempenharam um trabalho importante como parte da contribuição britânica para o Projeto Manhattan, e, em julho de 1945, foi concedida a permissão britânica, exigida pelo acordo, para o uso de armas nucleares contra o Japão. O Aide-mémoire de Hyde Park de setembro de 1944 estendeu a cooperação anglo-americana para o período pós-guerra, mas, depois do fim do conflito, o entusiasmo americano pela aliança com o Reino Unido diminuiu. O Ato McMahon (1946) encerrou a cooperação técnica através do controle dos "dados restritos". Em 7 de janeiro de 1948, o Acordo de Quebec foi substituído por um modus vivendi, um acordo que permitia o compartilhamento limitado de informações técnicas entre os Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá.
Contexto
Tube Alloys
O nêutron foi descoberto por James Chadwick no Laboratório Cavendish da Universidade de Cambridge em fevereiro de 1932. Em abril de 1932, seus colegas do Cavendish, John Cockcroft e Ernest Walton, dividiram átomos de lítio com prótons acelerados. Em dezembro de 1938, Otto Hahn e Fritz Strassmann, em seu laboratório em Berlim-Dahlem, bombardearam urânio com nêutrons desacelerados, e descobriram que bário havia sido produzido. Hahn escreveu ao seu colega Lise Meitner, que, juntamente com seu sobrinho Otto Frisch, explicou que o núcleo do urânio havia sido dividido. Por analogia com a divisão das células biológicas, eles nomearam o processo de "fissão".
A descoberta da fissão levantou a possibilidade de que uma bomba atômica extremamente poderosa pudesse ser criada. O termo já era familiar ao público britânico através dos escritos de H. G. Wells, em seu romance de 1913 O Mundo Libertado. O Comitê de Levantamento Científico da Defesa Aérea de Sir Henry Tizard foi originalmente formado para estudar as necessidades da guerra antiaérea, mas expandiu sua atuação para analisar a guerra aérea em geral. Em maio de 1939, alguns meses antes do início da Segunda Guerra Mundial na Europa, foi designado para conduzir pesquisas sobre a viabilidade de bombas atômicas. Tizard incumbiu George Paget Thomson, professor de física do Imperial College London, e Mark Oliphant, físico australiano da Universidade de Birmingham, de realizar uma série de experimentos com urânio. Até fevereiro de 1940, a equipe de Thomson não conseguiu criar uma reação em cadeia no urânio natural, e ele decidiu que não valia a pena prosseguir.
Oliphant’s team chegou a uma conclusão surpreendentemente diferente. Ele delegou a tarefa a dois cientistas refugiados alemães, Rudolf Peierls e Frisch, que não podiam trabalhar nos projetos secretos da universidade, como o radar, por serem considerados inimigo estrangeiros e, portanto, não possuíam a autorização de segurança necessária. Eles calcularam a massa crítica de uma esfera metálica de urânio-235 puro e descobriram que, em vez de toneladas – como todos supunham – bastaria algo entre , o que ocasionaria uma explosão com o poder de milhares de toneladas de dinamite.
Oliphant levou o memorando Frisch–Peierls para Tizard. Como resultado, foi criado o Comitê MAUD para investigar mais a fundo, dirigindo um esforço intensivo de pesquisa. Quatro universidades forneceram os locais onde os experimentos eram realizados. A Universidade de Birmingham conduziu trabalhos teóricos, como a determinação do tamanho da massa crítica necessária para uma explosão; esse grupo foi liderado por Peierls, com a ajuda do também cientista refugiado alemão Klaus Fuchs. Os laboratórios da Universidade de Liverpool e da Universidade de Oxford experimentaram diferentes métodos de separação de isótopos. O grupo de Chadwick, em Liverpool, tratou da difusão térmica, fenômeno observado em misturas de partículas móveis, em que os diferentes tipos de partículas respondem de maneira distinta à força de um gradiente de temperatura. O grupo de Francis Simon em Oxford investigou a difusão gasosa, que opera segundo o princípio de que, sob pressões diferenciadas, o urânio-235 difunde através de uma barreira mais rapidamente do que o urânio-238, sendo considerado o método mais promissor. Em Cambridge, o grupo de Egon Bretscher e Norman Feather estudou se outro elemento, posteriormente denominado plutônio, poderia ser utilizado como material físsil. Devido à presença de uma equipe de cientistas refugiados franceses liderada por Hans von Halban, Oxford também possuía o principal suprimento mundial de água pesada, o que lhes permitiu teorizarem sobre como o urânio poderia ser empregado para a geração de energia.
Primeiros esforços americanos A perspectiva de que a Alemanha desenvolvesse uma bomba atômica também era motivo de grande preocupação para os cientistas dos Estados Unidos, especialmente para aqueles refugiados da Alemanha Nazista e de outros países fascistas. Em julho de 1939, Leo Szilard e Albert Einstein haviam escrito uma carta alertando o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, sobre o perigo. Em resposta, Roosevelt criou um Comitê Consultivo sobre Urânio em outubro de 1939, presidido por Lyman Briggs do National Bureau of Standards. As pesquisas concentraram-se na fissão lenta para a produção de energia, mas com crescente interesse na separação de isótopos. Em 12 de junho de 1940, Vannevar Bush, presidente da Instituição Carnegie de Washington, e Harry Hopkins, importante conselheiro do presidente, apresentaram ao Chefe de Estado uma proposta para a criação de um Comitê de Pesquisa de Defesa Nacional (NDRC) para coordenar pesquisas relacionadas à defesa. O NDRC foi formalmente criado em 27 de junho de 1940, com Bush como seu presidente. Ele incorporou o Comitê Consultivo sobre Urânio – que havia ultrapassado seu papel original e passava a dirigir as pesquisas – transformando-o no Comitê de Urânio do NDRC.
Uma das primeiras ações de Bush como presidente do NDRC foi organizar uma reunião clandestina com o Air Commodore George Pirie, o adido aéreo britânico em Washington, e o Brigadeiro Charles Lindemann, adido do Exército Britânico (e irmão de Frederick Lindemann), para discutir uma oferta britânica de troca completa de informações técnicas. Bush era fortemente a favor da proposta e, em reunião realizada em 8 de julho de 1940, ofereceu orientações sobre como ela deveria ser apresentada. A proposta foi endossada em uma reunião do Gabinete dos Estados Unidos em 11 de julho, e uma aceitação oficial foi comunicada a Lord Lothian, o Embaixador Britânico nos Estados Unidos, em 29 de julho.
Entre a vasta quantidade de informações que a Missão Tizard – missão científica enviada aos Estados Unidos para promover a troca de ciência e tecnologia militar – trouxe para a América, estavam detalhes sobre as deliberações e atividades do Comitê MAUD. Algumas informações já haviam sido transmitidas aos Estados Unidos por Ralph H. Fowler, o adido científico britânico no Canadá. Cockcroft, membro da Missão Tizard, trouxe informações adicionais. Cockcroft e Fowler reuniram-se com o Comitê de Urânio, mas o fluxo de informações foi, em sua maioria, unilateral. Cockcroft relatou que o projeto americano da bomba atômica estava atrasado em relação ao britânico e não avançava com a mesma rapidez. O trabalho realizado nos EUA incluiu pesquisas de Szilard e Enrico Fermi na Universidade de Columbia sobre a possibilidade de uma reação em cadeia nuclear controlada; investigações preliminares sobre separação de isótopos utilizando centrifugação, difusão gasosa e processos de difusão térmica; e esforços para produzir plutônio no ciclotron do Laboratório de Radiação na Universidade da Califórnia, Berkeley .
Kenneth Bainbridge, da Universidade de Harvard, participou de uma reunião do Comitê MAUD em 9 de abril de 1941 e ficou surpreso ao descobrir que os britânicos estavam convictos da viabilidade técnica de uma bomba atômica. O Comitê de Urânio reuniu-se em Harvard em 5 de maio, ocasião em que Bainbridge apresentou seu relatório. Bush convocou um grupo liderado por Arthur Compton, laureado com o Nobel de Física e presidente do Departamento de Física da Universidade de Chicago, para investigar mais a fundo. O relatório de Compton, publicado em 17 de maio de 1941, não abordou em detalhes o projeto ou a fabricação de uma bomba; ao invés disso, endossou um projeto pós-guerra focado na energia atômica para produção de energia. Em 28 de junho de 1941, Roosevelt criou o Escritório de Pesquisa Científica e Desenvolvimento (OSRD), com Bush como seu diretor, diretamente responsável perante o presidente. A nova organização incorporou o NDRC, que passou a ser presidido por James B. Conant, o Presidente da Universidade de Harvard. O Comitê de Urânio foi transformado na Seção de Urânio do OSRD, mas logo foi renomeada para Seção S-1 por razões de segurança.
Embora o Reino Unido estivesse em guerra, os Estados Unidos não o estavam. Oliphant viajou para os EUA no final de agosto de 1941, ostensivamente para discutir o programa de radar, mas na verdade para descobrir por que os EUA ignoravam as conclusões do Comitê MAUD. Para seu desgosto, descobriu que os relatórios e demais documentos enviados diretamente a Briggs não haviam sido compartilhados com todos os membros do comitê; Briggs os trancafiara em um cofre. Em seguida, Oliphant reuniu-se com William D. Coolidge, que atuava no lugar de Compton enquanto este estava na América do Sul; também com Samuel K. Allison, colega de Compton na Universidade de Chicago, Ernest O. Lawrence, diretor do Laboratório de Radiação; Fermi e Conant, para explicar a urgência. Nessas reuniões, ele falou da bomba atômica com vigor e convicção. Allison recordou que, ao encontrar-se com a Seção S-1, Oliphant “chegou à reunião e disse ‘bomba’ de forma inequívoca. Ele nos afirmou que deveríamos concentrar todo o esforço na bomba e que não tínhamos o direito de trabalhar em centrais elétricas ou em qualquer outra coisa, exceto na bomba. A bomba custaria 25 milhões de dólares, dizia ele, e o Reino Unido não dispunha do dinheiro nem da mão de obra, ficando a responsabilidade conosco.”
Bush e Conant receberam o relatório final do MAUD de Thomson em 3 de outubro de 1941. Munidos desse documento, Bush reuniu-se com Roosevelt e o vice-presidente Henry A. Wallace na Casa Branca em 9 de outubro de 1941, obtendo o compromisso de expandir e acelerar o projeto americano da bomba atômica. Dois dias depois, Roosevelt enviou uma carta a Churchill propondo que trocassem ideias “de forma que quaisquer esforços ampliados possam ser coordenados ou mesmo conduzidos em conjunto.”
Colaboração