Sir Harry Hamilton Johnston (Kennington Park, Londres, 12 de junho de 1858 — Worksop (Nottinghamshire), 31 de julho de 1927) foi um explorador, botânico, artista, administrador colonial e linguista que teve papel relevante na ocupação britânica das regiões da África entre Angola e Moçambique, especialmente nos territórios em torno do lago Niassa. Viajou muito por África e falava algumas das línguas dos povos da regão sul daquele continente. Publicou cerca de 40 livros sobre temas relacionados com o continente africano e foi um dos principais intervenientes britânicos na corrida à partilha de África pelas potências europeias que ocorreu no final do século XIX na sequência da Conferência de Berlim.

Biografia Johnston nasceu em Kennington Park, no sul de Londres, filho de John Brookes Johnstone e de Esther Laetitia Hamilton. Frequentou a escola primária de Stockwell e depois o King's College London, seguindo-se quatro anos de estudos de pintura na Royal Academy. No âmbito dos seus estudos, viajou pela Europa e pelo Norte de África, visitando o interior pouco conhecido (pelos europeus) da Tunísia.

Em 1882, visitou o sul de Angola em companhia de Dermot Bourke, o 7.º conde de Mayo, e, no ano seguinte, encontrou-se com Henry Morton Stanley no rio Congo, tornando-se um dos primeiros europeus, depois de Stanley, a ver o rio acima do lago Malebo.

A sua reputação levou a Royal Geographical Society e a British Science Association a nomeá-lo líder de uma expedição científica ao Monte Kilimanjaro em 1884. Durante esta expedição, Johnston celebrou tratados com os chefes locais (que foram depois transferidos para a Companhia Britânica da África Oriental) (a British East Africa Company), em concorrência com os esforços alemães para fazer o mesmo naquela região.

Em outubro de 1886, o governo britânico nomeou-o vice-cônsul nos Camarões e na zona do delta do rio Níger, onde tinha sido declarado um protetorado britânico em 1885, e tornou-se cônsul em exercício em 1887, depondo e banindo o rei Jubo Jubogha, o Jaja de Opobo. A ferrovia Cairo-Cabo e o Catanga Enquanto esteve na África Ocidental em 1886, Johnston esboçou o que foi designado por mapa de fantasia das suas ideias sobre a forma como o continente africano poderia ser dividido entre as potências coloniais europeias. Este mapa previa dois blocos de colónias britânicas, um de território contínuo na África Ocidental, no vale do rio Nilo e em grande parte da África Oriental, até ao sul do lago Tanganica e do lago Malawi, e o outro na África Austral, a sul do rio Zambeze. Esta pretensão deixava uma faixa contínua de ocupação portuguesa de Angola a Moçambique e a Alemanha na posse de grande parte da costa da África Oriental.

A proposta original de um caminho de ferro do Cabo ao Cairo foi feita em 1874 por Edwin Arnold, o então editor do Daily Telegraph, que era o patrocinador da expedição de Henry Morton Stanley a África visando explorar o curso do rio Congo. O trajeto proposto para a ferrovia implicava uma mistura de transporte ferroviário e fluvial entre Elizabethville, atualmente Lubumbashi, no Congo Belga, e Sennar, no Sudão, em vez de um trajeto totalmente ferroviário.

Mais tarde, Johnston reconheceria a sua dívida para com Stanley e Arnold e, quando se encontrava de licença em Inglaterra em 1888, reviveu o conceito da ferrovia do Cabo ao Cairo propondo a criação de uma faixa contínua de território britânico em África, em discussão com Robert Gascoyne-Cecil, 3.º marquês de Salisbury, mais conhecido por Lord Salisbury. Johnston publicou então um artigo de apoio à ideia no The Times, como anónimo, assinando apenas como por um explorador africano, e mais tarde, em 1888 e 1889, publicou uma série de artigos noutros jornais e revistas com a aprovação tácita de Lord Salisbury..

Entretanto a Conferência de Berlim tinha atribuído a Província de Katanga à esfera de influência do Estado Livre do Congo do rei Leopoldo da Bélgica, mas, segundo o princípio da ocupação efectiva, tal reconhecimento era apenas provisório. Em julho de 1890, Leopoldo da Bélgica protestou junto de Lord Salisbury contra o facto de Johnston, na qualidade de agente de Cecil Rhodes, estar a fazer circular mapas que mostravam que o Estado Livre do Congo não incluía o Katanga e, em resposta aos inquéritos de Salisbury, em agosto de 1890 Johnston apresentou a reivindicação de Rhodes, que incluía a falsa informação de que Msiri, o rei de Garanganze (o reino de Yeke), no Katanga, tinha pedido a proteção britânica.

Em novembro de 1890, para justificar a sua pretensão, Johnston enviou Alfred Sharpe (que viria a ser o seu sucessor na Niassalândia) para representar Cecil Rhodes e a British South Africa Company (BSAC), a fim de obter um tratado de protetorado com o rei Msiri, uma iniciativa que poderia precipitar uma crise anglo-belga. Sharpe fracassou com Msiri, embora tenha obtido tratados com o reino de Mwata Kazembe que abrangiam o lado oriental do rio Luapula e o lago Mweru, e com outros chefes que abrangiam o extremo sul do lago Tanganica.

Quando, em maio de 1891, Leopoldo da Bélgica voltou a protestar junto de Lord Salisbury, este teve de admitir que Msiri não tinha assinado um tratado a pedir a proteção britânica, deixando o Katanga aberta à colonização belga. Em 1891, Leopoldo da Bélgica enviou a Expedição Stairs ao Katanga. Johnston dissuadiu os lídereas da expedição de aceder ao Katanga através da Niassalândia, tentando impedir o acesso, mas a expedição atravessou a África Oriental Alemã e tomou o Katanga depois de matar o rei Msiri. A fronteira sul do Estado Livre do Congo foi estabelecida por um acordo anglo-congolês celebrado em 1894. Niassalândia (Protetorado Britânico da África Central) Em 1879, o governo português reivindicou formalmente a área a sul e a leste do rio Ruo (atualmente a fronteira sudeste do Malawi) e depois, em 1882, ocupou o vale inferior do rio Chire até ao norte do vale do Ruo, iniciando o processo que daria origem ao conflito diplomático que ficaria conhecido pelo Incidente do Mapa Cor de Rosa que desembocaria no ultimato britânico de 1890. Tentou obter a aceitação britânica desta reivindicação, sem sucesso, e também falhou na reivindicação de que o Planalto do Chire fazia parte da África Oriental Portuguesa, uma vez que não estavam sob ocupação efectiva dos portugueses.

Em 1888, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico não aceitava a responsabilidade pelos missionários e colonos britânicos nas Terras Altas do Chire, depois de a African Lakes Corporation ter tentado, mas não conseguiu, tornar-se uma companhia majestática representastiva dos interesses britânicos na região e na margem ocidental do lago Malawi.

Apesar da recusa britânica de reconhecimento da ocupação portuguesa, em 1885-1886, Alexandre de Serpa Pinto tinha empreendido uma expedição que chegara às Terras Altas do Chire, embora não tivesse conseguido estabelecer quaisquer tratados de proteção com os chefes dos povos ajauas (ou Yao) a oeste do Lago Malawi. Num contexto de crescente conflito diplomático com Portugal, e para evitar uma possível ocupação portuguesa, em novembro de 1888, Johnston foi nomeado comissário e cônsul-geral britânico para os distritos de Moçambique e Niassa, tendo chegado a Blantyre (Malawi) em março de 1889. A caminho do posto para o qual fora nomeado, Johnston passou seis semanas em Lisboa tentando negociar um acordo aceitável sobre a esferas de influência portuguesa e britânica no sudeste de África. No entanto, como o projeto de acordo não excluía expressamente da esfera portuguesa o Planalto do Chire, foi rejeitado pelo Foreign Office londrino.

Entre os vários problemas prementes que afligiam o território da Niassalândia contava-se a arrastada Guerra de Karonga, uma disputa entre comerciantes de escravos e marfim swahili com os seus aliados do povo tumbuka (henga) e a African Lakes Corporation e facções do povo nyakyusa e do povo ngonde, que eclodira em 1887. Como Johnston não tinha forças significativas nessa altura, concordou com uma trégua com os líderes suaílis em outubro de 1889, mas os comerciantes suaílis não aderiram aos seus termos.

No final de 1888 e início de 1889, o governo português enviou duas expedições para celebrar tratados de proteção com os chefes locais. Uma, sob o comando de António Maria Cardoso, partiu em direção ao lago Malawi e a outra, sob o comando de Alexandre de Serpa Pinto, subiu o vale do rio Chire. Entre elas, fizeram mais de vinte tratados com chefes no território do atual Malawi. Perante o crescente conflito, Johnston encontrou-se com Serpa Pinto em agosto de 1889, a leste do rio Ruo, e aconselhou-o a não atravessar o rio, mas Serpa Pinto ignorou este conselho e atravessou o rio para Chiromo, povoado atualmente no Malawi. Em setembro daquele ano, na sequência de pequenos confrontos entre as forças de Serpa Pinto e os povos africanos locais, o adjunto de Johnston declarou um Protetorado das Terras Altas do Chire, apesar das instruções em contrário que recebera do governo britânico. A proclamação de Johnston da criação de um outro protetorado a oeste do lago Malawi, o Protetorado dos Distritos de Niassalândia, foi aprovada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico em maio de 1891, já depois da cedência portuguesa face ao ultimato britânico do ano anterior.

Johnston chegou a Chiromo, no sul da Niassalândia, a 16 de julho de 1891. Nessa altura, já tinha selecionado uma equipa de homens que iriam ajudar a formar a administração do novo protetorado. Esta equipa incluía Alfred Sharpe (vice-comissário de Johnston), Bertram L. Sclater (agrimensor, construtor de estradas e comandante da polícia), Alexander Whyte (zoólogo que descobriu várias espécies novas na Niassalândia), Cecil Montgomery Maguire (comandante militar), Hugh Charlie Marshall (funcionário da alfândega, coletor de receitas e chefe dos correios do distrito de Chiromo), John Buchanan (um agricultor que se encontrava na Niassalândia desde 1876 e que foi nomeado vice-cônsul por Johnston), entre outros.

Em 1891, Johnston controlava apenas uma fração das Terras Altas do Chire, uma pequena parte de todo o protetorado. Em 1891, recebeu uma pequena força de tropas indianas e começou a treinar soldados e polícias africanos. No início, Johnston utilizou a sua pequena força no sul do protetorado para reprimir o comércio de escravos pelos chefes Yao, que tinham estabelecido ligações com os comerciantes suaíli de marfim e escravos desde o início do século XIX. Como o povo Yao não tinha uma autoridade central, Johnston conseguiu derrotar um grupo de cada vez, embora isso tenha demorado até 1894, uma vez que deixou o chefe mais poderoso, Makanjira, para o fim, iniciando uma operação anfíbia contra ele em finais de 1893.

Antes de o Protetorado Britânico da África Central ter sido proclamado em maio de 1891, várias companhias e colonos europeus tinham feito, ou alegavam ter feito, tratados com chefes tribais locais, segundo os quais as terras pertencentes às comunidades africanas que as ocupavam eram transferidas para os europeus em troca de proteção e de alguns bens comerciais. A African Lakes Company reivindicou mais de 2,75 milhões de acres no norte do protetorado, alguns ao abrigo de tratados que alegavam transferir soberania para a empresa, e três outros indivíduos alegaram ter comprado grandes áreas de terra no sul. Eugene Sharrer reivindicou 363 034 acres, Alexander Low Bruce reivindicou 176 000 acres e John Buchanan e os seus irmãos reivindicaram mais 167 823 acres. Estas terras foram compradas a troco de quantidades insignificantes de bens, ao abrigo de acordos assinados por chefes que não compreendiam os conceitos de propriedade de terras em Inglaterra.