O financiamento climático no Piauí se refere aos recursos e mecanismos financeiros mobilizados por este estado brasileiro, bem como aqueles advindos do governo federal, de outros estados e do exterior, para reduzir emissões de gases de efeito estufa e adaptar-se aos impactos das mudanças climáticas.
Com território dividido entre a caatinga e o cerrado, o Piauí sofre pressão ambiental da expansão agrícola e poderá sofrer com desertificação, secas e temperaturas extremas caso o aquecimento global não seja freado. Além disso, tem parte de sua população em situação socialmente comprometida, o que a torna particularmente vulnerável às mudanças climáticas.
Tanto o estado quanto sua capital Teresina têm agido para buscar soluções e mecanismos de adaptação, tanto internamente quanto com parceiros pelo Brasil e até internacionalmente, embora algumas iniciativas tenham sido alvo de críticas.
Contexto ambiental no Piauí O Piauí é um dos estados que compõem a chamada Matopiba, juntamente ao Maranhão, Tocantins e Bahia, uma região de intenso desenvolvimento agrícola que concentra 74% do desmatamento do cerrado e 42% de toda vegetação suprimida no país. Segundo levantamento do Mapbiomas referente a 2024, o cerrado é o bioma mais desmatado do país, correspondendo a mais da metade do desmate total. 50% do território piauiense é do cerrado.
Além do cerrado, boa parte do território é coberta pela caatinga, que sofre pressão da expansão agrícola e gradativamente perde sua vegetação nativa e a vê substituída por monoculturas. O MapBiomas aponta também que o estado teve um total de 142.871 hectares desmatados em 2024, o triplo de 2019. O governo estadual, por sua vez, apontou para uma redução de 12% no índice de desmate para 2024 e estabeleceu meta de reduzir mais 10% até o final de 2025, com ajuda de um programa de créditos de carbono (ver detalhes na seção "Histórico de iniciativas e metas internas" abaixo). Anteriormente em 2022 a administração já relatava também uma redução de 57% nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em comparação com o pico de emissões de 2012. A cobertura florestal do Piauí caiu em 11% entre 1985-2023; o Plano Cerrado Vivo do governo conseguiu reduzir em 15,6% o desmatamento em 2024 comparado a 2023.
No âmbito des queimadas, entre 1985-2023 o estado figurou na 6ª colocação em área queimada (12.128.692 hectares). Todavia, em em 2024 foi o único além do Amapá a reduzir esse fenômeno (no caso, em 20%).
thumb|Fotografia de 2020 de área em processo de desertificação em Gilbués. Segundo mapeamento de suscetibilidade à desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Piauí é uma das unidades federativas mais vulneráveis, com mais de 40% do território em níveis avançados de degradação ambiental.
Um estudo de 2021 publicado na revista Ciência & Educação analisou o currículo escolar da rede de ensino municipal de Teresina e notou que o tema das mudanças climáticas raramente aparecia, ainda que assuntos como meio ambiente, educação ambiental e sustentabilidade fossem prevalentes e que a cidade tivesse contexto suficiente para estudantes relacionarem as mudanças climáticas às suas próprias vidas.
Energia limpa Em 2023, o Piauí era o quarto do país em expansão da rede de energia eólica e solar, totalizando 117 parques eólicos e 52 solares fotovoltaicos em operação e 46 outros em construção. Contudo, comunidades ribeirinhas como a da Ilha Grande manifestaram em reportagem de 2024 da Agência Eco Nordeste um sentimento de exclusão desta transição energética, por não se sentirem diretamente beneficiadas pelas usinas. Ainda, o MapBiomas também apontou que o estado sofreu aumento de 17,35% entre 2016 e 2024 especificamente no desmatamento da caatinga para fins de implementação de usinas fotovoltaicas.
Impacto das mudanças climáticas no Piauí O Piauí é uma das unidades federativas mais vulneráveis às mudanças climáticas no Brasil, com o norte do estado particularmente vulnerável a secas, e uma tendência projetada para o território em geral apontando para o aumento da temperatura e a diminuição das chuvas, com impactos nos recursos hídricos, produção agrícola, bem-estar da população e segurança alimentar.
No clima e na temperatura Um estudo de 2021 voltado para a região costeira do Delta do Parnaíba, na divisa com o estado do Maranhão, revelou tendência de aumento de temperatura em nove cidades piauienses. O estado como um todo pode ter sensações térmicas de até 71 °C e ficar inabitável até meados dos anos 2070, segundo dados de um estudo de 2020 da NASA que mapeou áreas pelo mundo que correm o risco de ficarem impróprias para a vida humana. Para a sensação térmica atingir tal nível, bastaria uma combinação de temperatura no ar de 35 °C com umidade de 50%. Nessa temperatura extrema, nem o suor daria conta de regular a temperatura do corpo, que pode vir a morrer conforme os órgãos deixam de funcionar.
Em 2025, ao menos 45 municípios do Piauí enfrentaram uma seca severa que levou ao colapso do abastecimento de água, perdas totais na agricultura e na pecuária e sumiço de abelhas. Segundo a coordenadora da Sala de Monitoramento e Previsão de Eventos Climáticos da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Sara Cardoso, esse evento extremo foi consequência das mudanças climáticas, assim como foram os índices de chuva aquém do esperado em Teresina e outra cidades do Centro-Norte e Norte do estado. Também ao longo de 2025, o estado passou pela chamada "seca verde", que é quando a paisagem não dá sinais óbvios de uma seca e a vegetação permanece inalterada.
thumb|left|O então presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva sobrevoando uma área inundada de Teresina em 2009. A capital Teresina está aquecendo num ritmo mais acelerado do que no resto do mundo - duas vezes mais acelerado, segundo a NASA. Na capital, a população se refere ao período mais quente do ano como "bró", por ser o trio de letras que finaliza os meses de setembro a dezembro, que compõem o período quente - contudo, este período agora vai até janeiro e pode começar tão cedo quanto julho. A intensificação de chuvas também foi detectada pela cidade, particularmente entre 2014-2024, com concentração de precipitação e ventos em determinados pontos. A capital tem também casos de ilhas de calor onde a temperatura supera os 40 °C em certos momentos (o que poderia ser mitigado pela substituição do pavimento de asfalto pelo de concreto). Projeta-se que a média anual local passe de 27 °C para 32 °C até 2070.
Teresina é particularmente vulnerável a enchentes também, por conta da maneira como o solo foi usado e ocupado, sendo que os locais mais propícios a enchentes, às margens dos rios Poti e Parnaíba, são justamente os habitados pela população mais vulnerável. Enchentes foram registradas em Teresina nos anos de 1924, 1926, 1960, 1974, 1985 e 2009. Por outro lado, o volume geral de chuvas tende a cair, deixando a região vulnerável a secas e queimadas.
No meio ambiente thumb|Revoada de guarás no Delta do Parnaíba em 2016; a espécie pode estar ameaçada pela degradação do local. Em 3 de junho de 2022, por ocasião dos 30 anos da Rio-92, o Globo Repórter exibiu um programa sobre os impactos das mudanças climáticas em diversas localidades brasileiras, incluindo duas no Piauí: o Delta do Parnaíba e o município de Gilbués. A reportagem falou do risco de extinção de duas espécies de aves migratórias (sendo uma delas o guará) por conta do possível desaparecimento de ilhas e mangues no delta, ponto de parada crucial na jornada delas. No caso de Gilbués, localizada no outro extremo do estado, o problema é a desertificação, fruto dos anos de atividades de mineração que degradaram o solo e o deixaram mais vulnerável às fortes chuvas que caem em pouco espaço de tempo.
As mudanças climáticas comprometem regiões costeiras, com consequências ambientais que se estendem à economia local, uma vez que muitas comunidades dependem da pesca e da agricultura. Por exemplo, os mangues do litoral de Luís Correia estão sofrendo aumento de sua salinização conforme o mar avança sobre a foz dos rios Cardoso e Camurupim. Os mangues desempenham papel importante justamente na resistência às mudanças climáticas, pois têm alta capacidade de absorção de dióxido de carbono e de retenção de sedimentos.
Como o vizinho Maranhão, o Piauí também é vulnerável a voçorocas como consequência do desmatamento.
Na saúde e nas pessoas A capital Teresina tem um dos mais altos índices de radiação solar, radiação ultravioleta e, por consequência, de câncer de pele. Em termos de aumento de temperatura, as crianças na primeira infância e os idosos, bem como pessoas com doenças de hipertensão, cardiovasculares e depressão, tendem a ser as parcelas mais afetadas da população, mas o sistema de saúde da cidade pode não estar suficientemente preparado para atender o público. As crianças ficam também mais suscetíveis a doenças respiratórias por conta das mudanças climáticas.
Em gestantes No final de 2024, foi divulgada uma pesquisa sobre o impacto do calor extremo na saúda de gestantes. Teresina figurou como única participante americana, contribuindo com 411 participantes de 75 unidades básicas de saúde da cidade. A pesquisa local foi realizada pela Agenda Teresina 2030 com recursos advindos da iniciativa global "Climate Change XX: Women's Health in Focus" ("Mudanças Climáticas XX: Saúde da Mulher em Foco", em tradução livre) da UNFPA.
O que a pesquisa revela é que 83,7% das mulheres alegam ter seu bem-estar negativamente afetado pelo calor, 66% sente desconforto frequente por conta das temperaturas elevadas e 44% enfrenta "intensidade extremamente alta" de calor. Além disso, 89% declararam impacto na saúde física, 82,24% relataram piora em sintomas de cansaço ou fadiga e 50,61% perceberam mais dificuldade para respirar. 37% apresentaram algum tipo de infecção no trato uroginegológico durante a gravidez e 75% atribuíram uma piora disso ao calor. Dentre as que receberam orientações de como lidar com as temperaturas, 90% ouviram instruções para beber água e 15% para se banhar mais. No caso das medidas que elas têm efetivamente tomado, 81% buscam abrigo fresco, 20% ficam no quarto com ar-condicionado e 20% vão para o quintal ou áreas cobertas da casa. 70% não frequentam parques ou praças, com 34% afirmando não gostar, 20% desprovidas de acesso e 18% se sentindo sem segurança em tais locais.
Em termos de saúde mental, 61% afirmou que sente de forma significativa o impacto do calor. A maioria delas é de mulheres pretas e pardas, que ficam em casa, se locomovem a pé e têm na média 27 anos.
Quando liberadas para falar espontaneamente, as participantes manifestaram como preocupações relacionadas ao calor: piora da falta de ar e evolução para quadros mais graves; gatilhos de ansiedade; insolação; AVCs; eclâmpsia; mal-estares, desmaios; parto prematuro; infarto; tontura; prejuízo emocional; pensamentos agoniantes; e aumento da depressão a ponto de colocar em risco a sua vida e a do bebê.
No universo de participantes que notou efeitos especificamente em seus bebês, que ficaram mais agitados, 92% notaram mais cansaço e 63% dificuldade de respirar. Muitas buscaram ajuda médica por sintomas que ligaram ao calor, como assaduras no corpo, falta de ar, dermatite, coceira, mal estar, dor de cabeça, insônia, confusão mental, enxaqueca, pressão baixa, sangramento no nariz e ansiedade agravada.
Histórico de iniciativas e metas internas thumb|Animação mostrando mudanças no uso da terra no Piauí entre 1985-2024. Legenda: Floresta Vegetação herbácea e arbustiva Água Área não vegetada Agropecuária