A Iniciativa de Paz Tumaini, lançada em 9 de maio de 2024 na capital queniana, Nairóbi, é uma mediação de alto nível para o conflito no Sudão do Sul, que incorpora todos os grupos dissidentes que não assinaram o Acordo Revitalizado para a Resolução do Conflito no Sudão do Sul (R-ARCSS) de 2018. O presidente do Quênia, William Ruto, o presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, e o ex-comandante do exército queniano e mediador-chefe, major-general Lazarus Sumbeiywo, são os principais mediadores da iniciativa.
Durante o evento de lançamento da Iniciativa de Paz Tumaini, cujo nome significa "esperança" em suaíli, seis chefes de Estado e diplomatas e autoridades de alto escalão de diferentes países africanos prestigiaram o evento, naquela que pareceu ser a última tentativa de pôr fim ao conflito armado que já dura uma década no Sudão do Sul.
Em 16 de maio de 2024, após dias de discussão formal sobre a resolução do conflito, todas as partes que participaram na iniciativa assinaram uma "Declaração de Compromisso", comprometendo-se a renunciar a qualquer tipo de violência. Alguns dos otimistas na iniciativa descreveram-na como uma "esperança renovada", outros foram céticos quanto à sua capacidade de mudar substancialmente a forma do conflito tribal no Sudão do Sul.
O professor Jan Pospisil, da Universidade de Coventry, descreve a iniciativa como uma forma de o governo do Sudão do Sul atrair apoio internacional para as próximas eleições. Jean-Pierre Lacroix, subsecretário-geral da ONU para a Paz e Operações, indicou que muitos problemas, incluindo a alta taxa de desemprego, conflitos entre comunidades, rivalidades políticas e o fluxo de refugiados e retornados para o Sudão do Sul, poderiam prejudicar as próximas eleições. Lacroix alertou que outra guerra poderia eclodir durante as eleições em um país já instável, caso a situação não seja tratada com cuidado.
Os líderes religiosos do Conselho Inter-Religioso da África Oriental encorajaram os partidos sul-sudaneses participantes a aproveitarem a Iniciativa de Paz Tumaini como uma oportunidade para trazer paz duradoura à sua jovem nação e pôr fim à violência recorrente e às divergências políticas.
Os grupos dissidentes desejavam que a Iniciativa de Paz Tumaini abordasse pautas que incluíam um novo governo interino, reformas do setor judiciário e estabelecimento de um Tribunal Híbrido do Sudão do Sul, acordo de segurança, reconstituição do Conselho de Revisão Estratégica de Defesa e Segurança, gestão comprometida e transparente das receitas e recursos públicos, um novo exército unificado, reestruturação e reconstituição da Comissão Nacional de Revisão Constitucional (CNRC), facilitação de mini conferências consultivas pela CNRC, modalidades de implementação, expansão da estrutura governamental pela inclusão de membros dos grupos dissidentes e uma nova constituição permanente.
Em 19 de junho de 2024, o primeiro vice-presidente do Sudão do Sul, Riek Machar, em carta dirigida ao mediador-chefe Lazarus Sumbeiywo, expressou sua preocupação de que a Iniciativa de Paz Tumaini pudesse influenciar o acordo de paz de 2018. Segundo Machar, o documento preliminar da Iniciativa de Paz Tumaini visa substituir o acordo de 2018. Também argumenta que essa iniciativa é contraditória e não possui legitimidade para alterar o acordo de paz de 2018.
Os partidos de oposição exigiram, no documento preliminar, que a Iniciativa de Paz Tumaini substituísse todos os acordos de paz anteriores, incluindo o acordo de paz de 2018, por contradizerem o roteiro proposto pelo Tumaini.
Em 8 de julho de 2024, Paul Malong Awan, presidente e comandante-em-chefe da Frente Unida/Exército do Sudão do Sul, o general Pagan Amum Okiech, líder do Real-SPLM, o general Stephen Buoy Rolnyang, presidente da Aliança Nacional do Sudão do Sul e comandante-em-chefe do Movimento/Exército do Povo do Sudão do Sul, e o general Mario Loku Thomas, presidente e comandante-em-chefe do Conselho de Comando Revolucionário da Frente de Salvação Nacional , discursaram em conferência de imprensa e reiteraram que a Lei de Segurança Draconiana do Serviço Nacional de Segurança, que concede ao Serviço Nacional de Segurança do Sudão do Sul autoridade para deter ou prender qualquer indivíduo suspeito de cometer crimes sem mandado de prisão, é perigosa e reproduz o reinado de terror e intimidação do regime de Cartum, sendo, portanto, totalmente rejeitada por todos os partidos da oposição sul-sudanesa. O grupo também condenou o governo do Sudão do Sul e os partidos políticos que assinaram o R-ARCSS de 2018 - geralmente referido como Governo de Transição Revitalizado de Unidade Nacional - por estenderem as próximas eleições por 24 meses sem consultá-los.
Os grupos de oposição acusaram o Presidente Kiir de ditadura e exigiram que uma nova constituição permanente fosse incluída na Iniciativa de Paz Tumaini. O texto acordado sobre a Constituição Permanente através da Conferência Constitucional Nacional Inclusiva deve ser inicialmente conduzido no Quênia e finalizado no Sudão do Sul. O grupo assegurou que qualquer decisão unilateral de realizar as eleições fora da Iniciativa de Paz Tumaini não será aceite e será simplesmente denunciada como atos de má-fé que provavelmente lançarão uma sombra sobre o processo de paz. Também ameaçaram boicotar a iniciativa e não assinar qualquer acordo com o Governo de Transição Revitalizado de Unidade Nacional se o Presidente Salva Kiir não revogasse a Lei de Segurança Draconiana.
Em 15 de julho de 2024, após uma semana de impasse, os partidos da oposição envolvidos na Iniciativa de Paz de Tumaini concordaram com oito protocolos, sinalizando progresso numa direção positiva para a negociação de paz que já durava meses. As partes concordaram com um acordo de segurança, cessar-fogo, medidas de construção de confiança, abordagem da violência comunitária, proliferação de armas, acesso humanitário, resolução das disputas de terras e o papel do garante do acordo de paz.
No entanto, no dia seguinte, o Movimento Popular de Libertação do Sudão na Oposição (SPLM-IO) emitiu uma declaração de retirada da iniciativa, alegando que a Iniciativa de Paz Tumaini violava o R-ARCSS (Acordo Revitalizado sobre a Resolução do Conflito no Sudão do Sul) e minava claramente a soberania do Governo de Transição Revitalizado de Unidade Nacional e a implementação em curso do acordo de paz de 2018.
Machar, o presidente do SPLM-IO, acusou a Iniciativa de Paz Tumaini de ultrapassar o seu mandato, afirmando que os partidos da oposição assumiram papéis excessivos. O SPLM-IO também alegou que o objetivo da iniciativa é a incorporação do R-ARCSS e, portanto, não se trata de um acordo independente.
Edmond Yakani, um ativista da sociedade civil e Diretor Executivo da Community Empowerment for Progress Organization, criticou a retirada do SPLM-IO, classificando a medida como uma tática de atraso e uma violação do documento 'Declaração de Compromisso' assinado por todas as partes que participaram da iniciativa em 16 de maio de 2024, incluindo o SPLM-IO.
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