Hanagata Kei (花形 敬, 1930 – 27 de setembro de 1963) foi um destacado membro da organização criminosa japonesa conhecida como Ando-gumi (安藤組), ativa no bairro de Shibuya, Tóquio, durante o período de reconstrução do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Considerado pelo alto escalão da organização e por contemporâneos como um dos mais formidáveis combatentes do submundo japonês do pós-guerra, Hanagata tornou-se figura lendária na cultura popular nipônica, sendo retratado em filmes, mangás e literatura de não-ficção.HONDA, Yasuharu. Kizu: Hanagata Kei to sono jidai (疵 花形敬とその時代). Tóquio: Chikuma Shobo, 1986.
Hanagata ficou conhecido pelo seu estilo de combate sem armas — denominado sutegoro (素手喧嘩, "briga de mãos nuas") — e pelo uso invariável de terno branco. Foi assassinado em 1963 aos 33 anos, numa emboscada atribuída a membros da organização rival Tosei-kai (東声会).Hanagata Kei sassatsu jiken (花形敬刺殺事件). Wikipédia em japonês. Disponível em: ja.wikipedia.org
Biografia
Família e origens
A família Hanagata possuía raízes profundas em Setagaya, remontando a mais de vinte gerações documentadas na região. Segundo tradição oral familiar — sem documentação formal que a confirme — a linhagem estaria ligada a guerreiros do exército do senhor de guerra Takeda Shingen (武田信玄), do século XVI.
O bisavô paterno, Hanagata Chonousuke (花形長之助, falecido em 1917), foi 17.º patriarca do clã e homem de influência política local. Atribui-se a ele atuação decisiva na incorporação da região ao Condado de Ebara da Prefeitura de Tóquio, então sob jurisdição da Prefeitura de Shinagawa. Faleceu em acidente: a carruagem em que regressava de serviço no Ministério da Casa Imperial do Japão colidiu com um bonde elétrico.
O tio-avô, Hanagata Meizo (花形明三, 1870–1912), 18.º patriarca, formou-se na Escola Especializada de Tóquio — predecessor da Universidade Waseda. Tentou empreender na indústria de seda artificial, sem êxito. Operou posteriormente um negócio de importação de carpetes e cortinas no distrito de Owaricho.
O pai, Hanagata Shozo (花形正三, 1883–?), estudou em Seattle, nos Estados Unidos, frequentou o Broadway High School e trabalhou como vendedor de automóveis Cadillac. Casou-se e residiu em Seattle, retornando ao Japão em 1924. Teve três filhos homens e três filhas.
A mãe, Mi (美以, 1894–?), era filha de uma família do domínio de Hagi (萩藩), de tradição samurai. Casou-se em 1917 e emigrou com o marido para os Estados Unidos.
Infância e adolescência
Nascido no bairro de Funabashi-cho, Setagaya, Hanagata cursou a escola primária Kyodo (経堂小学校). Contemporâneos relatam episódios de intervenção em situações de intimidação contra colegas, perseguindo e enfrentando agressores de outras escolas.
Ao ingressar na disputada Escola Secundária Chitose (東京府立千歳中学校), situava-se entre os dez primeiros alunos de uma turma de 250, segundo relatos de época.
Após deixar a Escola Chitose, transferiu-se para a Escola Secundária Kokushikan (国士舘中学校), onde disputou a liderança juvenil com Ishii Fukuzo — que mais tarde se tornaria presidente da Ishii-kai, afiliada à Sumiyoshi-kai. O conflito foi mediado por um estudante universitário chamado Shibata Fudumaru, resultando em acordo no qual Ishii reconheceu a supremacia de Hanagata em combate, enquanto este reconhecia Ishii como hierarquicamente mais velho. Hanagata foi posteriormente expulso da Kokushikan.MORITA, Masa. Shuraba no Ningen-gaku (修羅場の人間学). Tóquio, 1994.
Em seguida, ingressou no curso preparatório da Universidade Meiji (明治大学), onde consta ter integrado o clube de rugby. O lendário técnico do clube, Kitajima Tadaji (北島忠治), quando consultado por pesquisadores sobre Hanagata, afirmou não se recordar dele.
Entrada na Ando-gumi
Em 1950 (Showa 25), por intermédio de Ishii Fukuzo, Hanagata tornou-se shatei (舎弟, literalmente "irmão mais novo" ou discípulo) de Ando Noboru (安藤昇), líder da organização então conhecida publicamente como Ando-gumi e formalmente registrada como East Industries Co. (東興業株式会社).
A Ando-gumi distinguia-se de organizações yakuza tradicionais por proibir o uso de entorpecentes, tatuagens e o ritual de amputação de falange (yubitsume), comuns no submundo organizado. Adotava postura de aparência empresarial e atraía membros com formação universitária, chegando a contar com mais de quinhentos integrantes no auge. A polícia japonesa classificava o grupo não como yakuza mas como gurentai (愚連隊, gangue de rua), distinção que se mantém nos registros oficiais.
Ando Noboru, que após deixar o submundo se tornaria ator e escritor, declarou em múltiplas ocasiões que Hanagata era o membro de quem mais gostava em toda a organização.ANDO, Noboru. Bôkyaku no Haretsu e outras memórias. Declarações compiladas em MUKAIYA, Tadashi. Ando Noboru to Hanagata Kei. Tóquio: Seishisha, 2021.
Características e estilo de combate
Sutegoro
Hanagata adotava exclusivamente o combate desarmado, prática denominada sutegoro (素手喧嘩). Este princípio mantinha-se mesmo em confrontos com adversários portando armas brancas ou de fogo. O chefe da unidade especial da Ando-gumi, Morita Masa — mestre do estilo de esgrima Kashima Shinto-ryu — descreveu os socos de Hanagata como de grande potência e precisão, afirmando que adversários de grande porte eram derrubados com um único golpe e que Hanagata concluía confrontos sem sujar o terno que habitualmente usava.
Contemporâneos relatam que as apostas informais feitas em torno de seus confrontos não versavam sobre o resultado — tido como certo — mas sobre o número de golpes necessários para encerrar a luta.
Aparência
Hanagata usava invariavelmente terno branco, elemento que se tornou sua marca registrada. O laudo pericial registrou sua altura em 174 cm, mas membros da Ando-gumi e outras testemunhas consistentemente indicaram estatura superior a 180 cm.Registro publicado pelo Asahi Shimbun em setembro de 1963, citado em HONDA, 1986. A discrepância não foi esclarecida.
Seu rosto apresentava mais de vinte cicatrizes de cortes de faca, característica que contribuiu para o apelido Scarface (スカーフェイス). A origem dessas marcas é objeto de especulação: embora a versão corrente atribua as cicatrizes ao acúmulo de confrontos ao longo dos anos, testemunhos não verificados sugeriram que Hanagata as teria infligido a si mesmo deliberadamente para aumentar seu caráter intimidador. Essa versão nunca foi confirmada nem oficialmente refutada.
Episódios notáveis
Caso Jimmy (1952)
Em 7 de maio de 1952, Hanagata e o judoca Sato Shoji (佐藤昭二, faixa preta quarto dan) depararam-se com um homem espancando o proprietário de um estabelecimento na região de Udagawacho, em Shibuya. O agressor era conhecido pelo apelido Hitokiri Jimmy (人斬りジミー, "Jimmy, o Cortador"), cujo nome completo era Wadimas Graburi Auskas — nascido no Japão de ascendência russa branca, fora internado durante a guerra por ser considerado estrangeiro e estava envolvido em violência habitual na região desde o fim do conflito.
Após confronto inicial, Jimmy regressou a sua residência, armou-se com uma katana e voltou ao local acompanhado da esposa. Na madrugada de 8 de maio, o encontro culminou em novo confronto físico no qual Hanagata, utilizando apenas os punhos, causou ferimentos que levaram Jimmy à morte.
O episódio resultou em prisão e condenação de Hanagata. É um dos registros mais documentados de sua trajetória criminal.
Incidente com Rikidozan (c. 1955)
O lutador de wrestling profissional Rikidozan (力道山) — uma das maiores celebridades esportivas do Japão dos anos 1950 — abriu um cabaré chamado "Junjo" (純情) em Shibuya sem realizar o protocolo de reconhecimento perante a Ando-gumi, organização que controlava o território.
Segundo relato de Ando Noboru, Hanagata foi ao estabelecimento, confrontou Rikidozan pessoalmente e o pressionou a comparecer a uma reunião. O lutador não compareceu ao encontro marcado. A situação foi resolvida mediante mediação do ex-lutador de sumô Higashifuji (東富士), resultando em compromisso formal de Rikidozan de não praticar violência sob efeito de álcool.
Uma versão alternativa do incidente, narrada por Morita Masa, atribui o confronto direto com Rikidozan dentro do estabelecimento ao membro Otsuka Minoru, não a Hanagata — situando este em episódio subsequente na via pública. Ambas as versões concordam nos contornos gerais e no desfecho.
Caso Yokoi e prisão de Ando (1958)
Em 1958, membros da Ando-gumi executaram ataque contra o empresário Yokoi Hideki (横井英樹). Ando Noboru foi preso, condenado e sentenciado a oito anos de reclusão. Hanagata, identificado como partícipe, recebeu pena de um ano e seis meses.
Com Ando encarcerado, Hanagata assumiu a chefia interina da organização até a dissolução desta em 1964.
Assassinato
Antecedentes
Em agosto de 1963, um subordinado de Hanagata agrediu gravemente um membro da Tosei-kai (東声会) — organização liderada por Machii Hisayuki (町井久之) —, causando múltiplos ferimentos com canivete. Hanagata iniciou negociações de mediação com a Tosei-kai, buscando uma resolução diplomática que incluía o pagamento de indenização.
Paralelamente às tratativas, a Tosei-kai tomou uma decisão independente.
O ataque
Na noite de 27 de setembro de 1963, Hanagata esteve em um clube em Shinjuku e, por volta das 23h15, chegou de carro ao seu apartamento em Futago (二子), às margens do Rio Tama, em Kawasaki. Dois membros da Tosei-kai aguardavam-no escondidos próximos ao local.
Ao descer do veículo, foi abordado pelos dois homens. Após confirmar sua identidade, foi esfaqueado simultaneamente por ambos os lados com facas de cozinha (柳刃包丁). O ataque foi presenciado por um funcionário de restaurante próximo e por dois estudantes do ensino médio, que perseguiram os agressores. Durante a fuga, um dos assassinos disparou uma arma de fogo contra os perseguidores, ferindo gravemente o funcionário do restaurante com tiro no pulmão esquerdo.
Hanagata faleceu naquela noite em decorrência das feridas. No momento do ataque, carregava uma boneca — presente que adquirira para a filha.
Repercussão e dissolução da organização
O velório realizou-se na residência familiar em Kyodo, Setagaya. A mãe de Hanagata solicitou aos líderes da Ando-gumi que não houvesse represália, argumentando que outras famílias não deveriam sofrer a mesma perda. O pedido foi atendido.
Ando Noboru cumpria pena na Prisão de Maebashi (前橋刑務所) e soube da morte do discípulo enquanto encarcerado. Em dezembro de 1964, após sua libertação, ordenou a dissolução da Ando-gumi.
Legado cultural
Literatura
A obra de referência sobre Hanagata Kei é o livro de não-ficção Kizu: Hanagata Kei e Sua Época (疵 花形敬とその時代), do jornalista e escritor Honda Yasuharu (本田靖春), publicado pela Chikuma Shobo. Honda foi repórter do Yomiuri Shimbun e conduziu investigação jornalística extensiva sobre o personagem e o período histórico.
Outras obras incluem: Ando Noboru to Hanagata Kei (安藤昇と花形敬), de Mukaiya Tadashi (Seishisha, 2021) Shuraba no Ningen-gaku (修羅場の人間学), de Morita Masa — contém versão alternativa de vários episódios Hana to Judan (花と銃弾), de Mukaiya Tadashi — centrado no subchefe Nishihara Kengo, discípulo de Hanagata
Cinema
Cinco filmes produzidos pela Toei (東映) retratam Hanagata ou episódios de sua vida:
Ano Título Diretor Intérprete de Hanagata 1974 Ando-gumi Gaiden: Hitokiri Shatei Nakajima Sadao Sugawara Bunta 1988 Kizu (疵) Kajima Shunichi Jinnai Takanori 1993 Shuraba no Ningen-gaku Kajima Shunichi Yamashita Shinji 2002 Jitsuroku Ando-gumi Gaiden: Garo no Okite Kajima Shunichi Aikawa Sho 2005 Shibuya Monogatari Kajima Shunichi Shimao Yasushi
No filme de 1974, Ando Noboru interpretou a si mesmo como protagonista. O ator Sugawara Bunta — um dos principais nomes do cinema de yakuza japonês — tornou-se o intérprete mais associado ao personagem.
Mangá