Samuel ibne Adia (), também conhecido como Abu Xurai Açamaual ibne Garide ibne Adia Alazedi Algaçani (; m. ), foi um judeu e poeta árabe da Jailia, ativo em meados do . Sua genealogia é transmitida de diferentes formas pelas fontes, que também lhe atribuem ascendência judaica pelo lado paterno e gassânida pelo materno. Viveu nas proximidades de Temá, no castelo de Alablaque, tradicionalmente atribuído a seu avô Adia e situado numa rota frequentada por viajantes e comerciantes entre a Arábia e a Síria.
Samuel tornou-se célebre sobretudo por sua reputação de fidelidade, consagrada no provérbio árabe "mais fiel que Samuel" (awfā min al-Samawʾal). Segundo uma tradição posteriormente associada ao poeta Inru Alcaice ibne Hujer, este teria confiado a Samuel familiares, armas e outros bens antes de partir em busca de auxílio bizantino. Quando um governante inimigo exigiu a entrega dos bens e ameaçou matar um dos filhos de Samuel, ele teria preferido sacrificar o filho a violar a confiança nele depositada. As versões divergem quanto à identidade do responsável pelo cerco de Alablaque, e a associação específica do episódio a Inru Alcaice é considerada uma elaboração posterior por parte da pesquisa moderna. O núcleo da história da fidelidade de Samuel, contudo, já aparece associado a ele na antiga tradição poética e tornou-se o principal fundamento de sua fama na literatura árabe.
Embora sua reputação posterior tenha superado a importância de sua produção poética, um pequeno corpus de poemas foi transmitido sob seu nome, incluindo uma célebre lāmiyya incorporada à Hamasa de Abu Tamame. A autenticidade dessa produção é objeto de ampla controvérsia: poemas individuais foram atribuídos a outros autores, alguns apresentam elementos considerados islâmicos ou corânicos, e nenhuma composição transmitida em seu nome permaneceu inteiramente livre de questionamentos de autoria. A religião judaica de Samuel também fez de sua poesia objeto de estudos sobre as relações entre judaísmo e islã nos primeiros séculos da tradição árabe, embora a incerteza quanto à autenticidade do corpus limite seu emprego como testemunho direto do judaísmo árabe pré-islâmico.
Vida
Samuel ibne Adia, também referido nas fontes árabes como Abu Xurai Açamaual ibne Garide ibne Adia Alazedi Algaçani, foi um poeta árabe judeu da Jailia, ativo em meados do . Sua genealogia é incerta e transmitida de diferentes formas pelas fontes, entre elas Samuel ibne Adia Aliaudi, Samuel ibne Garide ibne Adia e Samuel ibne Hia ibne Adia. Segundo outra tradição, seu pai descendia de Aarão ou de Caine, filho de Harune e ancestral dos judeus dos curaizaítas e nadiritas, enquanto sua mãe pertenceria aos gassânidas. Samuel vivia nas proximidades de Temá, no castelo de Alablaque, que teria sido construído por seu avô Adia. Erguido sobre uma elevação, o castelo servia como ponto de parada para viajantes que percorriam as rotas entre a Arábia e a Síria, e árabes provenientes de diferentes regiões ali se hospedavam e realizavam atividades comerciais. Samuel refere-se em um dos poemas que lhe são atribuídos à construção da fortaleza por seu avô e manifesta o desejo de que permanecesse protegida e não fosse destruída.
Segundo a tradição, Samuel foi contemporâneo de Inru Alcaice ibne Hujer. Depois da morte do pai e de sua luta contra os açaditas para vingá-lo, Inru Alcaice perdeu progressivamente seus apoiadores e procurou proteção entre diferentes grupos. Durante sua tentativa de obter auxílio para recuperar sua posição, teria se dirigido a Alablaque e se tornado hóspede de Samuel. Segundo a tradição relatada por Jacobs e Montgomery, Inru Alcaice chegou ao castelo acompanhado da filha Hinde, de um primo e de armas, incluindo cinco cotas de malha. Samuel recebeu-o e alojou seus acompanhantes, e o poeta permaneceu algum tempo sob sua proteção. Quando decidiu procurar o auxílio do imperador bizantino , Inru Alcaice pediu a Samuel uma carta de recomendação destinada ao rei gassânida , que poderia ajudá-lo a prosseguir viagem. Ao partir, teria deixado sob a guarda de Samuel sua filha, o primo, suas armas e parte dos bens herdados do pai. Tüccar situa aproximadamente em 538 a passagem de Inru Alcaice por Alablaque e registra igualmente que os objetos e pessoas foram confiados a Samuel antes de sua partida em direção a Constantinopla. Bauer, contudo, considera posterior a associação específica dessa tradição a Inru Alcaice. O episódio da fidelidade de Samuel já é mencionado em um poema de Alaxa, mas sem referência a Inru Alcaice, enquanto um poema atribuído ao próprio Samuel menciona a preservação das "cotas de malha do quindita"; segundo Bauer, também essa referência ao quindita é espúria.
Fidelidade a Inru Alcaice
A fama posterior de Samuel esteve estreitamente ligada à tradição sobre sua recusa em entregar os bens que lhe haviam sido confiados, episódio que deu origem à sua reputação proverbial de fidelidade. Na versão que associa esses bens a Inru Alcaice ibne Hujer, depois da partida do poeta, o rei lácmida de Hira , que se opunha a Inru Alcaice, exigiu que Samuel lhe entregasse os objetos depositados em Alablaque. Diante da recusa, forças enviadas contra Samuel cercaram o castelo. Incapazes de tomá-lo, os sitiantes capturaram um dos filhos de Samuel, que se encontrava fora da fortaleza. Segundo a versão preservada por Jacobs e Montgomery, o comandante das forças sitiantes apresentou a Samuel a escolha entre entregar os bens confiados a ele e assistir à morte do filho. Samuel recusou-se a quebrar o compromisso assumido, afirmando que poderia ter outros filhos, ao passo que a honra, uma vez perdida, não poderia ser recuperada. O filho foi então morto diante dele, sem que Samuel entregasse os bens. Tüccar transmite essencialmente o mesmo núcleo narrativo: Samuel recusou-se a trair a confiança depositada nele apesar da ameaça contra o filho, que acabou morto diante de seus olhos. Bauer registra uma versão diferente, segundo a qual o rei gassânida , ao saber das armas guardadas por Samuel, marchou contra ele e o sitiou em Alablaque; Alharite teria capturado um filho de Samuel que se encontrava fora do castelo e ameaçado matá-lo caso as armas não fossem entregues. Samuel teria preferido assistir à morte do filho a trair a confiança nele depositada. Bauer ressalta, contudo, que a identificação dos bens como pertencentes especificamente a Inru Alcaice constitui um desenvolvimento posterior da tradição.
O episódio tornou Samuel proverbialmente conhecido por sua fidelidade. Sua conduta deu origem entre os árabes ao provérbio "mais fiel que Samuel" (awfā min al-Samawʾal), e sua fama posterior esteve associada mais à fidelidade à palavra empenhada e à coragem demonstrada nesse episódio do que à própria atividade poética. Samuel também celebrou essa qualidade em versos atribuídos a ele, e alguns críticos consideraram uma dessas composições um dos melhores exemplos do gênero de poesia de exaltação pessoal. A tradição sobre a fidelidade de Samuel continuou associada à sua família. Alaxa já aludiu poeticamente ao episódio, constituindo um testemunho antigo da tradição sobre a fidelidade de Samuel, embora sem relacioná-la especificamente a Inru Alcaice. Segundo Jacobs e Montgomery, Alaxa foi posteriormente capturado com outros árabes e levado a Alablaque, então pertencente a Xurai, filho de Samuel. Ao perceber que Xurai podia ouvi-lo, Alaxa recitou versos nos quais exaltava a conduta de Samuel e conclamava o filho a seguir o exemplo paterno. Xurai obteve sua libertação e lhe deu um camelo antes de deixá-lo partir. Xurai, seu irmão Jaride e um neto de Samuel chamado Saba também são mencionados como poetas. Samuel morreu provavelmente na segunda metade do , sendo sua morte situada aproximadamente em 560. Segundo a tradição recolhida por Tüccar, um de seus filhos e um de seus netos também compuseram poesia, e um de seus descendentes teria se convertido ao islã e vivido até o califado de .
Poesia e autenticidade
A poesia atribuída a Samuel caracteriza-se sobretudo por temas de honra, coragem e fidelidade. Já na Idade Média, contudo, o corpus que circulava sob seu nome era reduzido. O divã reunido por compreende apenas nove poemas, num total de 88 versos, aos quais se acrescentam algumas composições preservadas independentemente em antologias posteriores. Uma das composições pelas quais se tornou mais conhecido é uma lāmiyya que apresenta princípios de conduta associados à preservação da honra e a uma vida considerada digna. Correspondente ao primeiro poema do divã, foi incluída por Abu Tamame na Hamasa e, no , serviu de base para uma takhmīs de . A composição alcançou grande circulação e prestígio, mas sua autoria é contestada: também foi atribuída a , poeta do início do . Tüccar observa que a relativa obscuridade deste último, em contraste com a celebridade de Samuel decorrente da tradição sobre sua fidelidade, pode ter favorecido a atribuição do poema a Samuel. Problemas semelhantes afetam outras composições atribuídas a Samuel. O segundo poema do divã também foi preservado na Asmaiyyat de Alasmai, enquanto partes dele aparecem citadas em outras fontes, entre elas as Tabaqat de Ibne Salame Aljumai. A composição contém referências ao nascimento, à morte e ao Dia do Juízo que podem recordar elementos da literatura agádica, mas também foram interpretadas como possíveis interpolações islâmicas.
De modo mais amplo, a presença de elementos islâmicos e de expressões de caráter corânico em alguns poemas transmitidos em nome de Samuel levou estudiosos a questionar sua autenticidade. Também foi considerada duvidosa a atribuição de uma tāʾiyya incluída por Alasmai em sua antologia. A ausência de qualquer poema atribuído a Samuel nas al-Mufaḍḍaliyyāt, de Almufadal Adabi, uma das mais antigas antologias consideradas confiáveis da poesia árabe, foi igualmente apontada como elemento que reforça essas dúvidas. A autenticidade do corpus tornou-se, assim, um dos principais problemas da pesquisa moderna sobre Samuel. Theodor Nöldeke defendeu a autenticidade de uma das composições contra dúvidas que ele próprio manifestara anteriormente, enquanto Giorgio Levi Della Vida propôs, numa hipótese considerada muito provável por Bauer, que o poema poderia ter sido composto por um descendente de Samuel convertido ao islã, mas ainda familiarizado com tradições judaicas. Bauer ressalta, em termos mais gerais, que a autoria de Samuel não pode ser demonstrada com segurança para nenhuma das composições transmitidas sob seu nome e que não há sequer um poema cuja atribuição a ele tenha permanecido incontestada.
Jacobs e Montgomery manifestam reservas semelhantes a respeito da composição atribuída a Samuel que figura no início da Hamasa. Embora descrevam o poema como marcado por vigor guerreiro, coragem e elevado ideal de honra, observam que nada em seu conteúdo o distingue claramente da produção de outros poetas árabes e que a base textual utilizada para atribuí-lo a Samuel não é conclusiva. Consideram, contudo, provável que pelo menos a maior parte da composição seja dele, uma vez que autoridades antigas consideradas confiáveis lhe atribuíam partes do poema. Tadeusz Kowalski também questionou a atribuição de algumas peças do divã de Samuel. Entre elas está um poema apresentado como resposta a uma composição de , que atribuiu a outro poeta, , de Medina. Bauer observa que esse Samuel foi considerado por alguns estudiosos um poeta desconhecido pertencente aos curaizaítas e possível autor do sétimo poema do divã de Samuel ibne Adia; ressalva, contudo, que, caso Samuel Alcurazi tenha sido efetivamente um poeta da época de Maomé, é improvável que o poema tenha existido na forma em que foi transmitido. Tüccar observa que o problema da autenticidade da produção atribuída a Samuel despertou particular interesse entre orientalistas que procuravam nesses textos possíveis indícios das relações entre o judaísmo e o islã.