Os Maicá é um conjunto de música regionalista gaúcha ligado à cidade de Cruz Alta (Rio Grande do Sul). O grupo iniciou sua trajetória sob o nome Nenéco e Os Maicá, tendo em sua formação Alberto Reichardt da Silva, conhecido como Nenéco, e os irmãos Abílio Maicá e Wilmar Maicá.

Com repertório dedicado principalmente aos ritmos tradicionais do Rio Grande do Sul, o conjunto desenvolveu sua trajetória em diferentes formações. Após a saída de Nenéco, em 1980, passou a utilizar o nome Os Maicá, mantendo suas atividades.

História

Formação

A história do conjunto tem origem em Cruz Alta, a partir do encontro de Alberto Reichardt da Silva, o Nenéco, com os irmãos Abílio Maicá e Wilmar Maicá.

Um dos registros mais antigos sobre a formação encontra-se na contracapa do compacto Plano de Gaúcho. O texto de apresentação, assinado por Manoel Pedro Mello (Mello Manso), recupera a trajetória dos três músicos antes da formação do conjunto e apresenta Abílio e Wilmar pelos nomes com que eram conhecidos naquele período: Maicá e Maicázinho, respectivamente.

Nenéco, nome artístico de Alberto Reichardt da Silva, era natural de Cruz Alta. Sua relação com a música começou ainda jovem. Segundo o relato preservado na contracapa do disco, desde pequeno demonstrava interesse pela música gaúcha e chegou a formar uma dupla com seu irmão. Posteriormente passou a atuar no CTG Rodeio da Saudade, de Cruz Alta, como gaiteiro do elenco de danças.

Os irmãos Abílio Maicá e Wilmar Maicá eram naturais de Santo Ângelo. Ainda crianças, mudaram-se com a família para Cruz Alta. Os dois mantinham contato com a música desde jovens, tocando violão e cantando em dupla.

Posteriormente, Wilmar passou também a dedicar-se à gaita. A experiência musical dos irmãos antecedeu, portanto, a formação de Nenéco e Os Maicá.

Os irmãos passaram a integrar o elenco de danças do CTG Rodeio da Saudade. Foi nesse ambiente tradicionalista de Cruz Alta que suas trajetórias se encontraram com a de Nenéco, que já atuava como gaiteiro do elenco.

A convivência entre os três músicos deu origem ao conjunto Nenéco e Os Maicá.

Plano de Gaúcho

No final da década de 1960, Nenéco e Os Maicá realizaram um de seus primeiros registros fonográficos, o compacto Plano de Gaúcho.

Além das gravações, a contracapa do compacto preservou informações sobre os integrantes e sobre as circunstâncias que levaram à formação do grupo. O texto de apresentação foi escrito por Manoel Pedro Mello, conhecido como Mello Manso.

O repertório daquele período já apresentava a participação dos próprios músicos e de integrantes da família Maicá na criação musical.

Durante a gravação do compacto Plano de Gaúcho, em São Paulo, Cenair Maicá participou da gravação de Canção à Minha Terra, tocando gaita na faixa.

Na mesma ocasião, Cenair encontrava-se no estúdio juntamente com Noel Guarany, com quem realizava gravações. O episódio aproximou o início da trajetória fonográfica de Nenéco e Os Maicá da parceria musical posteriormente desenvolvida por Cenair Maicá e Noel Guarany.

Produção fonográfica

Após os primeiros registros, Nenéco e Os Maicá desenvolveram uma produção fonográfica dedicada à música regional gaúcha.

Entre os trabalhos da primeira fase encontram-se Plano de Gaúcho, Aurora Gaúcha, Broto de Saudade, trabalhos identificados por volumes e Felicidade de Gaúcho.

A produção do conjunto foi lançada principalmente pela gravadora Califórnia.

Aurora Gaúcha

Entre os LPs da primeira fase encontra-se Aurora Gaúcha, lançado pela Califórnia.

O repertório conhecido do álbum inclui:

Me Ajude Amigo Plano de Gaúcho Vou Embora Para Outro Mundo Revivendo o Passado Tapera Velha Gaúcha Linda Aurora Gaúcha Carreta Velha Pedacinho do Meu Brasil Solitário Sem Tristeza Tropeiro Triste

Felicidade de Gaúcho

Outro registro fonográfico de Nenéco e Os Maicá é o LP Felicidade de Gaúcho, lançado pela gravadora Califórnia sob o número de catálogo CL 4293.

A existência do disco e da gravação de Vanera Grossa por Nenéco e Os Maicá é documentada em pesquisa acadêmica da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). A pesquisa referencia Vanera Grossa no LP Felicidade de Gaúcho, da Califórnia, identificando o registro como CL 4.293-B e indicando o ano de 1977.

O repertório conhecido do álbum inclui:

Felicidade de Gaúcho — Abílio Maicá Tu na Tua e Eu na Minha — Darcy Lopes Casamento Moderno — Abílio Maicá e Wilmar Maicá Lembranças de Tropeiro — Rubens D. Soares, Wilmar Maicá e Abílio Maicá Feliz Sonhador — Bruno Neher e Leonir Sempre Quem Paga Sou Eu — Rubens Soares e Abílio Maicá Eterno Sofrer — Abílio Maicá Vanera Grossa — recolha do folclore gaúcho, adaptação de Nenéco Regresso ao Rio Grande — Adão Reichardt da Silva Cantares da Minha Terra — Rubens D. Soares e Nenéco Fazendeira Linda — Abílio Maicá Não Te Esqueci — Bruno Neher e Leonir

Uma relação publicada do disco também identifica Felicidade de Gaúcho como álbum SOM/Califórnia, CL 4293, e registra as doze faixas e seus respectivos créditos.

Vanera Grossa

Vanera Grossa tornou-se uma das músicas associadas à trajetória de Nenéco e Os Maicá.

A composição aparece no LP Felicidade de Gaúcho identificada como recolha do folclore gaúcho, adaptada por Nenéco.

A gravação também é documentada em pesquisa acadêmica da Universidade Federal da Grande Dourados, que referencia:

Vanera Grossa. In: NENECO E OS MAICÁ. Felicidade de Gaúcho. Disco em LP CL 4.293-B. Califórnia, 1977, faixa 2.

A ligação de Nenéco com a música também aparece em material didático dedicado ao acordeão, no qual Vanera Grossa é descrita como uma vaneira recolhida por Nenéco dos Maicá e como um de seus sucessos fonográficos.

O mesmo material identifica Nenéco como Alberto Reichardt da Silva, relaciona seu nome artístico aos anos de atividade musical junto ao conjunto Os Maicá, identifica os músicos com Cruz Alta e descreve Nenéco como compositor e tocador de gaita-ponto.

Recolhimento da melodia

Segundo a memória preservada pelos integrantes do conjunto, antes de chegar ao disco a melodia de Vanera Grossa já circulava oralmente entre gaiteiros do interior do Rio Grande do Sul, sem que fosse conhecida com precisão uma autoria original.

A chegada da música ao repertório de Nenéco e Os Maicá ocorreu por intermédio de Wilmar Maicá.

Wilmar deslocou-se até a localidade de Nova Esperança, onde encontrou um gaiteiro conhecido como Beto. Durante o encontro, o músico executou a vaneira, que já fazia parte do repertório de gaiteiros da região.

Wilmar registrou a execução em uma fita cassete (K7), permitindo que a melodia fosse posteriormente levada ao conjunto.

A caracterização da música como material recolhido da tradição oral é compatível com o crédito utilizado posteriormente no disco: Rec. Folc. Gaúcho – Adapt. Neneco.

A versão recolhida por Wilmar possuía originalmente uma segunda parte diferente. Durante o processo de adaptação, essa passagem foi retirada de Vanera Grossa e posteriormente aproveitada como base para outra peça instrumental, denominada Vanera Velha.

Para Vanera Grossa foi incorporada uma nova segunda parte, resultando na forma posteriormente registrada pelo conjunto.

Dessa maneira, o processo de recolhimento e adaptação ficou relacionado a duas peças instrumentais: Vanera Grossa, na forma registrada por Nenéco e Os Maicá, e Vanera Velha, desenvolvida a partir da passagem que anteriormente integrava a melodia recolhida.

Continuidade como Os Maicá

Em 1980, Nenéco deixou o grupo, mas o conjunto não encerrou suas atividades.

A partir dessa mudança, deixou de ser utilizada a denominação Nenéco e Os Maicá e o conjunto passou a apresentar-se simplesmente como Os Maicá.

Nessa nova etapa ingressou o acordeonista Valdir dos Santos, autor de Vaneirão Lascado. Valdir assumiu a gaita na primeira formação que atuou sob o nome Os Maicá e permaneceu no conjunto de 1980 a 1982.

Em 1982, após a saída de Valdir dos Santos, ingressou o acordeonista Valnez Oliveira, conhecido artisticamente como Cotonete, que anteriormente havia atuado com a cantora Berenice Azambuja.

A entrada de Cotonete representou uma nova mudança na formação, mantendo a continuidade da trajetória iniciada como Nenéco e Os Maicá.

O conjunto continuou suas atividades nas décadas seguintes sob o nome Os Maicá.

Músicos que passaram pelo conjunto

Ao longo de suas diferentes fases, Os Maicá fizeram parte da trajetória de músicos que posteriormente integraram outros conjuntos da música regional gaúcha.

Entre eles está Zé Leandro, músico natural de Cruz Alta. Uma biografia publicada pelo Repórter Riograndense registra que seu primeiro contato com os bailes ocorreu justamente no grupo Os Maicá.

Posteriormente, Zé Leandro integrou Os Charruas, participou da fundação do grupo Raça Campeira e passou por grupos como Garotos de Ouro, Bando Gaúcho, Campeirismo, Tchê Barbaridade, Tchê Guri e Chiquito & Bordoneio.

A própria biografia oficial de Zé Leandro também registra que seu primeiro contato com os bailes ocorreu no grupo Os Maicá.

Carreta Velha

Em período posterior de sua trajetória, já sob o nome Os Maicá, o conjunto lançou o CD Carreta Velha, dando continuidade à produção fonográfica iniciada na fase Nenéco e Os Maicá.

O trabalho foi lançado em 2012 e constitui um registro da fase posterior do conjunto.

O título recupera ainda o nome de Carreta Velha, música que já integrava o repertório do conjunto em sua primeira fase.

Reconhecimento

Ao longo de sua trajetória, Os Maicá mantiveram ligação com a vida musical de Cruz Alta e com sucessivas gerações de músicos da região.

Em reconhecimento à trajetória e à contribuição prestada à música regional, Os Maicá receberam, em Cruz Alta, o Troféu Érico Veríssimo, em reconhecimento à condição de conjunto pioneiro da cidade e à participação na história musical do município.

Integrantes

Entre os músicos que participaram das diferentes fases do conjunto estão:

Alberto Reichardt da Silva (Nenéco) — gaita pianada e gaita-ponto na primeira fase; Abílio Maicá — integrante da formação original; Wilmar Maicá — integrante da formação original; Valdir dos Santos — acordeão, de 1980 a 1982; autor de Vaneirão Lascado; Valnez Oliveira (Cotonete) — acordeão, a partir de 1982.

Outros músicos participaram das diferentes formações mantidas pelo conjunto ao longo de sua trajetória.

Discografia

Nenéco e Os Maicá

Plano de Gaúcho — compacto; Aurora Gaúcha — LP; Broto de Saudade — LP; Vol. 4 — LP; Felicidade de Gaúcho — LP, Califórnia, CL 4293.

Os Maicá

Os Maicá — 1980; Carreta Velha — CD, 2012.

Legado

A trajetória de Nenéco e Os Maicá e, posteriormente, Os Maicá atravessou diferentes períodos da música regional do Rio Grande do Sul, desde as primeiras gravações em compacto e LP até trabalhos posteriores realizados sob o nome Os Maicá.

Entre os registros associados ao conjunto destaca-se Vanera Grossa. A gravação por Nenéco e Os Maicá em Felicidade de Gaúcho está documentada em pesquisa acadêmica da Universidade Federal da Grande Dourados.

Material dedicado ao ensino do acordeão também registra Vanera Grossa como música recolhida por Nenéco dos Maicá e relaciona Alberto Reichardt da Silva ao conjunto Os Maicá e à cidade de Cruz Alta.

A passagem de músicos como Zé Leandro pelo conjunto também é documentada por fontes externas. Seu primeiro contato com os bailes ocorreu nos Maicá antes de sua passagem por diversos outros grupos da música regional gaúcha.

Ver também

Música nativista Música do Rio Grande do Sul Cruz Alta Cenair Maicá Valdomiro Maicá Noel Guarany

Referências

Bibliografia

MARTINS, Sandro Fogaça. A profissionalização na música regionalista gaúcha em Cruz Alta-RS. Trabalho de Conclusão de Curso, Curso de História, Universidade de Cruz Alta, 2006. MARTINS, Sandro Fogaça; OLIVEIRA, Vânia Maria Abreu de. Música regionalista e profissionalização dos músicos em Cruz Alta. In: Pesquisa, ensino e produção no contexto universitário. Curitiba: CRV, 2014.