Tapirapé ou tapi'irape (apyãwa) é uma língua indígena brasileira pertencente ao tronco Tupi que é falada nas proximidades do rio Araguaia, na fronteira entre os estados de Mato Grosso e Tocantins.Rodrigues, A. D. (2013). Relações internas na família linguística Tupí-Guaraní. Revista Brasileira De Linguística Antropológica, 3(2). https://doi.org/10.26512/rbla.v3i2.16264DIETRICH, Wolf. O tronco tupi e as suas famílias de línguas. Classificação e esboço tipológico. In: NOLL, Volker. O Português e o Tupi no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2010. O idioma, que conta com cerca de 760https://www.indios.org.br/pt/Quadro_Geral_dos_Povos falantes pertencentes à etnia Tapirapé, é classificado como vulnerável de acordo com a UNESCO.

Etimologia O termo "Tapirapé", de origem na língua tupi, significa "caminho da anta" (tapi'ira, anta + apé, caminho). Essa é a forma pela qual os povos indígenas ancestrais chamavam a Via Láctea, e é o nome dado ao povo pelos estrangeiros (mãira). Apesar de não ser a maneira pela qual esses indígenas chamavam a si mesmos (apyãwa), o termo passou a ser usado por eles como uma forma de identificá-los e de denotar a língua que falam, tanto na língua portuguesa quanto, frequentemente, na própria língua tapirapé. Distribuição Atualmente, os falantes da língua tapirapé vivem em duas Terras Indígenas (TI), a Terra Indígena Tapirapé/Karajá e a Terra Indígena Urubu Branco. Ambas localizam-se em uma região da floresta amazônica às margens do rio Tapirapé, afluente do rio Araguaia, no Nordeste do Mato Grosso. TI Tapirapé/Karajá Localizada na foz do rio Tapirapé, nos municípios de Luciara e Santa Terezinha (MT), a Terra Indígena Tapirapé/Karajá é o espaço de habitação mais antigo dos Tapirapés. Nessa região, coabitada pelos Karajás, os indígenas são geralmente trilíngues, dominando as línguas tapirapé e karajá como línguas maternas e a língua portuguesa como língua estrangeira. A TI compreende as aldeias Itxalá, Hawalora e Majtyritãwa, sendo esta última a de maior concentração dos falantes da língua tapirapé.

TI Urubu Branco Esta região, reconquistada mais recentemente pelos Tapirapés, situa-se aproximadamente 180 quilômetros a oeste do território Tapirapé/Karajá, entre os municípios de Santa Terezinha, Confresa e Porto Alegre do Norte. Contemplando as aldeias de Akara'ytãwa, Tãpiparanytãwa, Tãpi'itãwa, Towãjaatãwa e Wiriaotãwa, o TI tem como ponto central a Serra do Urubu branco, de grande importância cultural aos Tapirapés.

Em contraste com a Terra Tapirapé/Karajá, o Território Indígena Urubu Branco é ocupado majoritariamente pelos Tapirapés, logo os habitantes da TI são, em sua maioria, bilíngues, dominando o tapirapé como língua materna e o português como língua estrangeira.

Línguas Relacionadas A língua tapirapé, em virtude das semelhanças culturais, geográficas e linguísticas dos seus falantes com outras etnias, é classificada como uma língua Tenetehara, assim como as línguas tenetehara, avá-canoeira, parakanã, suruí-aikewara e asuríni do Tocantins, sendo que esta última apresenta diversas semelhanças com o tapirapé em relação aos padrões vocálicos. Nessa família linguística pode-se distinguir algumas características em comum em relação ao Proto-Tupi, como: Permanência das consoantes finais, podendo ou não haver modificações estruturais; Transformações em fonemas: /pw/ é transformado em /kw/; /pj/ é transformado em /tx/ ou /ts/; /j/ pode ser substituído por /tx/, /ts/, /s/ ou /z/.

Ademais, a língua tapirapé não possui dialetos internos ou outra língua da qual ela pode ser considerada um dialeto. Fonologia

A fonologia da língua tapirapé é uma herança distante dos falantes do Proto-Tupi. Dentre seus principais aspectos, pode-se destacar a forte presença dos processos de alternância e nasalidade nas vogais. Vogais

Ao contrário da maioria das línguas da família Tupi-Guarani, os Tapirapés fazem uso de 5 fonemas vocálicos, contrariando o sistema predominante na família de 6 fonemas vocálicos.

+Fonemas vocálicos orais da língua tapirapéAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaMédiaAberta

O fonema vocálico é realizado de forma central, aberta e não-arredondada, sendo o fonema sua correspondência no Alfabeto Fonético Internacional (AFI). Exemplo: marare (gado): /maɾaɾe/;

O fonema vocálico , na maioria das vezes, é realizado de maneira central, fechada e não-arredondada, o que corresponde à partícula fonética no AFI. Note que, em virtude da variação da altura da língua na emissão dos fonemas vocálicos, essa representação também contempla o fonema , vogal central, média e não-arredondada. Exemplo: my (pé): /mɨ/ (O fonema é representado como "y" na escrita tapirapé);

O fonema vocálico , em geral, representa a vogal anterior, média e não-arredondada , podendo englobar, de acordo com a variação de altura da língua, a vogal anterior, semifechada e não-arredondada . Exemplo:

tapi'irape (Tapirapé): /tapiʔiɾapɛ/;

O fonema vocálico representa a vogal anterior, fechada e não-arredondada, ou seja, o fonema , de acordo com o quadro fonético do AFI. Exemplo:

ãpi (fruta vermelha): /ãpi/;

Ao contrário dos demais fonemas vocálicos, a natureza da partícula fonética é controversa, pois ela é tida como uma interpretação do conjunto de vogais , e , todas elas vogais posteriores e arredondadas: fechada, semifechada e semiaberta, respectivamente. É incerto se há uma influência fonética e lexical na escolha da vogal na fala, porém é possível notar um certo grau de subjetividade pelos falantes da língua tapirapé. Paralelamente, a escolha do fonema como representante desse conjunto é influenciada pela evolução vocálica do Asuríni, língua semelhante, onde neutralizou-se o fonema do Proto-Tupi em . Exemplo dessa ambiguidade:

ixoro (boca dele): /itʃoɾɔ/ ou /itʃuɾu/, de acordo com dois falantes distintos de tapirapé.

Nasalidade As vogais nasais do idioma tapirapé são semelhantes às suas contrapartes orais, geralmente havendo um posicionamento mais alto e posterior da língua na emissão desses fonemas. O frequente fenômeno da nasalização, aparentemente espontâneo, ocorre em virtude de um certo fator de compacidade, em um processo diacrônico: ao longo da História dos povos Tapirapés, houve uma gradual substituição fonética, que resultou em um grau de nasalidade mais frequente, principalmente na vogal : + Evolução vocálica da língua tapirapéProto-TupiTapirapé*** Outro aspecto relevante desse fenômeno é que, com exceção do fonema , em posições finais e tônicas as vogais nasais geralmente apresentam um grau de nasalidade mais fraco, praticamente inaudível, porém ainda presente.

Ademais, a nasalização não tem relação com a tonicidade de uma palavra, pois a nasalidade é determinada pela estrutura inerente aos morfemas, como radicais e sufixos. Apesar disso, é possível observar casos em que uma vogal originalmente oral pode ser nasalizada, como casos nos quais a vogal precede uma consoante nasal ( ou ).

Consoantes O sistema de consoantes da língua tapirapé é relativamente simples, pois há 12 fonemas consonantais no total. + Inventário consonantal da língua tapirapéBilabialAlveolarPós-AlveolarVelarGlotalPlosivaPlosiva labializadaNasalVibrante simplesAfricadaFricativaAproximante labializada Esses sons assilábicos podem ser divididos em duas categorias principais:

Sons iniciais, que podem ser emitidos apenas no início de uma sílaba, mas não no seu final. Estão contidas nessa categoria as consoantes , , , , e , sendo que esta última é pouco usual.

Sons ubíquos, ou seja, aqueles que podem ocorrer tanto no início quanto no final de uma sílaba. Nessa categoria enquadram-se os fonemas , , , , e . Ademais, os sons e não ocorrem no final de uma palavra após uma vogal nasal, constituindo uma exceção a essa categorização. Nesse contexto, ainda, é comum o fenômeno de alternância consonantal, onde as plosivas bilabial () e alveolar () são alternadas com suas correspondentes nasais, ou seja, e , respectivamente. Esses fonemas nasais, paralelamente, podem ser alternados para a aproximante labiovelar () e a vibrante simples alveolar, nessa ordem. Dessa maneira, percebe-se uma estabilidade maior no lugar do que no modo de articulação, pois este varia enquanto as posições bilabial e alveolar são mantidas. Exemplo:

[awowot] ~ [awowon] ("está inchado") — ocorre a alternância de consoantes plosivas.

Ortografia A língua dos Tapirapés era originalmente uma língua apenas oral, não havendo um sistema de escrita específico para o idioma. No entanto, devido ao contato com os colonizadores portugueses, a língua passou a ser representada pelo sistema de escrita latino, apresentando muitas semelhanças com a escrita da língua portuguesa, em especial o que é atualmente o português brasileiro. Na escrita tapirapé estão presentes 18 grafemas, sendo que 12 são consonantais e 6 são vocálicos. Letra Valor fonético Exemplo na língua portuguesa Aa carro Ee , aberto Gg hang (língua inglesa) Hh hope (língua inglesa) Ii pilhaJj Kk casa Mm maçã Nn banana Oo , , ponte Pp tempo Rr cara Tt ponta Ww what (língua inglesa) Xx tchau Yy ты [ty] (língua russa) ' uh-oh (língua inglesa) kʷ qual

Além das letras apresentadas, é presente no sistema um acento gráfico, que é o til (~), utilizado para representar o grau de nasalização das vogais. Gramática A estrutura gramatical utilizada pelos falantes da língua tapirapé é bastante abstrusa em relação ao falante do português, de forma que a separação entre as classes gramaticais é flexível e a grande maioria das palavras consideradas de uma classe podem ser utilizadas com uma função totalmente diferente. Nessa perspectiva, a análise linguística do tapirapé revela que a distinção entre fatores como o gênero e a classe gramatical de uma palavra é dependente da situação semântica, ou seja, do contexto, o que leva a separação em classes a depender também do contexto e ser feita, muitas vezes, de maneira analógica aos elementos mais habituais das línguas.

Esse sistema baseado na subjetividade e no contexto é comum a outras línguas Tupi-Guarani, sendo que o tapirapé apresenta uma certa afinidade gramatical com outras línguas do conjunto de famílias IV (Teneteharas), V (Xingus) e VI (Cauaíbe). Transcategoriais Alguns morfemas se manifestam em diversas composições verbais, nominais e adverbiais, de forma a serem cabíveis a diversas categorias, ao mesmo tempo que não servem a apenas uma categoria da gramática tapirapé em específico. Os principais morfemas transcategoriais são:

O sufixo referenciante (-a), herdado do Proto-Tupi, é utilizado para indicar a ideia complemento ou predicação em nomes ou objetos. Essa forma sufixal é constituída pelos alomorfos -a e -ø, que são empregados quando o tema termina em vogal ou em consoante, respectivamente.

O prefixo relacional (r-) ocorre em diversas situações de temáticas nominais, verbais e posposicionais. A adição do prefixo insere um grau de hierarquia na frase, dando ao termo precedido pela partícula o papel de núcleo da frase, em um processo conhecido como marcação de núcleo. Seu uso é mandatório na estrutura de nomes relativos, a fim de indicar a relação, enquanto seu uso em nomes não-relativos é opcional. Esse prefixo possui 3 alomorfos: r-, que é empregado na maioria dos temas começados por vogal; ø-, que é empregado quando o termo começa com uma consoante e em casos isolados em que começa com uma vogal; e n-, que ocorre exclusivamente em alguns casos nos quais o morfema complementa uma palavra na 2ª pessoa do plural.

O sufixo intensivo (-'o), muito pertinente na língua tapirapé, dá um grau de intensidade a nomes, pronomes, verbos e advérbios, podendo indicar aumentativo ou derivação nominal. Seus alofones usuais são -'o, para palavras terminadas em vogal, e -oo, para palavras terminadas em consoante.