A Construção de Deus (, ) é uma ideia proposta por alguns dos primeiros marxistas proeminentes da facção bolchevique do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo. Inspirado na Religião da Humanidade de Auguste Comte, o conceito teve alguns precedentes na Revolução Francesa com o Culto da Razão. A ideia propunha que, no lugar da abolição da religião, deveria haver um contexto metarreligioso no qual as religiões fossem vistas principalmente em termos do efeito psicológico e social do ritual, do mito e do simbolismo, e que tentasse aproveitar esta força para objectivos pró-comunistas, tanto através da criação de novos rituais e simbolismos, como através da reinterpretação de rituais e simbolismos existentes num contexto socialista. Em contraste com o ateísmo leninista, os chamados construtores de Deus assumiram uma posição oficial de agnosticismo. Lunacharsky, Anatoly (1908). Religion and Socialism. Moscou.Pospielovsky, Dimitry V. (1987). A History of Marxist-Leninist Atheism and Soviet Anti-Religious Policies. Volume 1: A History of Soviet Atheism in Theory, and Practice, and the Believer. Nova Iorque: St Martin's Press.

Os construtores de Deus defendiam o papel emocional do sentimento religioso e propunham uma narrativa de deificação secularizada para a construção de um novo ser humano coletivo do futuro. Dentre seus expoentes, se incluíram Anatoly Lunacharsky, Maxim Gorky, Alexander Bogdanov e Vladimir Bazarov; uma culminância de seu movimento ocorreu na chamada escola de Capri, de 1907 a 1910. Os construtores de Deus foram um dos dois principais campos de intelectuais na Era de Prata russa que buscavam alternativas à visão de mundo rigidamente materialista, o outro grupo sendo o dos buscadores de Deus (bogoiskatelia), antagônicos a eles. Tendo se articulado muito em resposta e diálogo ao idealismo desses últimos, pode-se dizer em certa medida que os construtores de Deus se constituíram inspirados pelos buscadores de Deus.

Origem O conceito de foi alcançado de forma independente por Anatoly Lunacharsky e Maxim Gorky. Eles estavam convictos de que o elemento emocional era religioso e uma dimensão essencial ao ser humano, e o coletivismo fundamentava seu entendimento religioso do socialismo. Para ambos, a construção de Deus era uma forma de se atingir um "novo tipo psicológico" ou "novo homem" do futuro.

Lunacharsky estava alinhado com a ala vperedista da facção bolchevique. Embora mais tarde ele voltasse a se juntar aos bolcheviques e de fato se tornasse chefe do Comissariado do Povo para a Educação depois de outubro de 1917, ele estava originalmente intimamente associado ao rival de Vladimir Lenin, seu cunhado Alexander Bogdanov. Em sua obra de dois volumes, Religião e Socialismo (1908–11), Lunacharsky propôs sua teoria de :

Ele propôs um novo sentimento religioso que se acomodaria à visão de mundo do comunismo, criando uma nova religião que fosse compatível com a ciência e não baseada em quaisquer crenças sobrenaturais. Segundo Lunacharsky: "Socialismo é um tipo particular de religião―sem Deus, sem um mundo transcendente e sem um grama de misticismo e metafísica".

Lunacharsky afirmou que, embora a religião tradicional fosse falsa e usada para fins de exploração, ela ainda cultivava emoções, valores morais, desejos e outros aspectos da vida que eram importantes para a sociedade humana. Ele acreditava que estes aspectos deveriam ser transformados em valores humanísticos positivos de uma nova moralidade comunista, em vez de se destruir completamente a religião quando esta servia de base psicológica e moral para milhões de pessoas. Na sua ideia, Deus seria gradualmente substituído por uma nova visão da humanidade e, ao fazê-lo, o socialismo alcançaria grande sucesso.

Ele e os seus apoiantes argumentaram que o marxismo era demasiado mecanicamente determinista no que diz respeito aos seres humanos e que sozinho não seria capaz de inspirar massas populares. Eles postularam ainda que o simbolismo e o ritual desempenhavam um papel social e psicológico necessário. Quanto ao valor social da religião, Lunacharsky escreveu:

A "religião da humanidade" de Ludwig Feuerbach, na qual esta foi inspirada, sustentava que Deus seria substituído pelo homem como objeto de adoração. Isso não significava que indivíduos isolados seriam adorados, mas sim que todo o potencial da raça humana e todas as suas realizações seriam objeto de adoração. Em vez de projetar os valores humanos nos céus e submeter as pessoas à sua própria criação ilusória, esses valores seriam adorados na humanidade como um todo, que os possuía coletivamente. Esta religião levaria as pessoas a valorizarem-se e a encontrarem um propósito comum, uma comunidade e um significado universal em si mesmas como um coletivo.

Junto com a recepção hegeliana de Feuerbach, eles também se inspiraram no Naturfilosofie de Richard Avenarius, no empiriocriticismo de Ernst Mach, bem como em Friedrich Nietzsche. Foram também chamados de "marxistas nietzscheanos", pois que afirmavam o ensino do Übermensch como o ser humano futuro, perfeito, divino, supraindividual e imortal. Lunacharsky também estava particularmente interessado nas Escolas de Mistérios Gregas, especialmente nos Mistérios de Elêusis. Lunacharsky via os Mistérios de Elêusis como um modelo de como o ritual comunitário poderia ser usado como veículo para o ensino de conceitos morais.

Tal como Sergei Bulgakov, Lunacharsky e Gorky afirmavam que o povo devoto russo teriam melhor recepção de um socialismo religioso.

Os construtores de Deus entendiam que o termo religião significava uma ligação entre os seres humanos como indivíduos, uma ligação entre os seres humanos e as comunidades, e uma ligação entre os seres humanos e as sociedades do passado e do futuro. Lunacharsky escreveu: "Em prol da grande luta pela vida... é necessário que a humanidade se funda quase organicamente em uma unidade integral. Não uma ligação mecânica ou química... mas uma ligação psíquica, conscientemente emocional... é na verdade uma emoção religiosa." Ele argumentou que o ateísmo em si é pessimista, porque a vida perde o sentido, e que para resolver isso é necessário recorrer ao prazer de uma religião para dar sentido. O ateísmo não proporcionou às pessoas o significado nas suas vidas que a religião proporcionou e, uma vez eliminada a religião, as pessoas sentir-se-iam vazias, a menos que algo fosse colocado no seu lugar. Em seu lugar, Lunacharsky propôs que deveriam colocar a humanidade como uma entidade transcendente.

Lunacharsky desejava mudar o mandamento de amar a Deus acima de tudo:"Você deve amar e divinizar a matéria acima de tudo, [amar e divinizar] a natureza corporal ou a vida do seu corpo como a causa primária das coisas, como existência sem começo nem fim, que foi e sempre será... Deus é a humanidade em seu potencial mais elevado. Mas não existe humanidade no mais alto potencial... Amemos então os potenciais da humanidade, os nossos potenciais, e representemos-os numa guirlanda de glória para amá-los cada vez mais."Lunacharsky via o marxismo como tendo componentes religiosos, incluindo a sua fé na vitória inevitável do socialismo, bem como a sua crença na ciência e na existência material como produtoras de todas as relações humanas. Esses elementos poderiam auxiliar na Construção de Deus. Lunacharsky interpretou os acontecimentos da revolução de 1905 como uma expressão das forças religiosas da nação. A religião a ser criada adoraria o ideal social do socialismo na sua deificação da humanidade.

Lunacharsky e os seus apoiantes rejeitaram a divindade de Cristo, mas respeitaram-no profundamente e reinterpretaram-no como um líder revolucionário e o primeiro comunista do mundo. A nova religião teria orações dirigidas ao progresso, à humanidade e ao gênio humano. A oração coletiva, e não individual, foi enfatizada devido ao desejo de usar a prática espiritual para apoiar uma ação revolucionária comum. Esta nova religião teria templos e rituais, e teatro com peças simbólicas para induzir sentimentos espirituais. Lunacharsky acreditava que o teatro e o simbolismo eram ferramentas importantes de transformação psicológica e sociológica e da "luta da alma humana" contra a opressão.

Rejeição A noção de Anatoly Lunacharsky de que a religião era um fenômeno complexo com muitos aspectos contrastava com as opiniões de outros líderes soviéticos nos primeiros dias da URSS que pensavam que a religião desapareceria com as mudanças nas condições materiais, sob a presunção marxista de que a religião e toda ideologia era simplesmente um produto de condições materiais.

Vladimir Lenin enfureceu-se com este conceito, e considerou extremamente prejudicial a posição de Lunacharsky, ao supostamente transformar o marxismo num reformismo liberal moderado. Ele acreditava que isso obscurecia o fato de que a religião tinha sido uma ferramenta de exploração ideológica e que esta ideia estava a fazer um compromisso com as forças reacionárias.<ref>Laskovaia (1976). Bogoiskatel'stvo i bogostroitel'stvo prezhde i teper'''. Moscou: Moskovskii rabochii. </ref>

Nas discussões iniciais que se seguiram à revolução de 1905, Lenin atacou os construtores de Deus dentre outros "empiriocríticos", em sua obra Materialismo e Empiriocriticismo''. Bogdanov respondeu em um artigo em que acusava Lenin de ter um apego religioso a uma forma de entendimento do materialismo. Bognadov inicialmente chamava seu sistema de construção de Deus de "empiriomonismo", e posteriormente de "tectologia"; Bogdanov, diferente das afirmações de Lenin de que ele era idealista, considerava que o mundo é real, porém que as coisas-em-si eram filtradas pela lente da cultura.

No ano de 1908 ocorreu a publicação de grandes obras e simpósios dos construtores de Deus, que se consideravam como propondo uma síntese entre os buscadores de Deus e os marxistas ortodoxos, ao mesmo tempo em que se defendiam dos ataques de ambos. Eles tentaram articular outras duas escolas partidárias para a educação de trabalhadores, porém sem sucesso.

A vitória de Lenin na Revolução de Outubro de 1917 levou à rejeição desta escola de pensamento, exceto no caso de Alexander Bogdanov.Valentinov, Nikolaĭ (1953). Vstrechi's Leninym. Nova Iorque: Chekhov Publishing House. pp. 283–304.