As Guerras Angolanas foram uma longa série de conflitos travados em território que hoje faz parte de Angola, envolvendo principalmente o Portugal e o Reino do Dongo, o Reino do Congo, o Reino de Matamba, o Reino de Cassange, o Reino de Libolo e a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, de 1579 a 1683.

Paulo Dias de Novais fundou a cidade de Luanda em 1576 e três anos depois estalaram as hostilidades com o Reino do Dongo, após ter o rei Quiacassenda massacrado a comunidade de mercadores portugueses na sua capital. Os portugueses eram pouco numerosos mas dispunham de equipamento mais pesado e, sobretudo, associaram à sua causa grande número de guerreiros africanos, cujo apoio foi vital para o sucesso das armas lusas no difícil sertão africano."O controle dos sobas garantia a penetração no interior e o avanço da “conquista” e, ao mesmo tempo, fortalecia os exércitos lusitanos, pois os sobas aliados tinham obrigação de dar passagem, alojamento e alimentação às tropas portuguesas, serem “amigos dos amigos e inmigos dos inimigos”, de ceder pessoas de sua jurisdição para compor as tropas da “conquista”, a chamada “GUERRA PRETA”. Ao  lado dos generais portugueses, lutavam africanos designados por  seus sobas em sinal de obediência. As guerras em Angola  não  existiriam  sem  a  maciça participação dos africanos, que atuavam como soldados, carregadores, guias na densa mata, coletores de alimentos, já que a fome era um grande problema dos exércitos em Angola. Além do braço para a guerra, os africanos combatentes utilizavam seus conhecimentos tribais na preparação para a luta, as estratégias próprias para aquela geografia e suas próprias  armas (machadinhas, arcabuzes, lanças)." in Mariana Bracks Fonseca: "Rainha nzinga mbandi, imbangalas e portugueses: as guerras nos kilombos de Angola no século XVII" in Cad. Pesq. Cdhis, Uberlândia, v.23, n.2, jul./dez. 2010, pp. 392-393. A Rainha Ginga notabilizou-se ao forjar "a maior coligação de estados angolanos no séc. XVII" contra os portugueses que, não obstante, superaram todas as adversidades e emergiram como a principal potência na região.

As hostilidades envolveram Portugal e o Reino do Dongo sobretudo, de 1579 a 1622. Após negociar um tratado de paz entre Portugal e o Dongo, a Rainha Ginga usurpou o poder e estalou a guerra-civil entre os seus partidários e os de um pretendente rival ao trono, Aire Quiluanje, que procurou apoio junto dos portugueses."...upon his death she took the title of queen and began to rule in her own name. Njinga's succession triggered a civil war that pitted her faction, descended from Dembo a Pe, primarily against the faction of Hari a Kiluanje with its base and Mpungu a Ndongo, who along with Mubanga, had supported the initial Portuguese-Imbangala invasion and swore vassalage to Portugal in its aftermath." in Thornton, John K: A History of West Central Africa, 2020, Cambridge University Press, p. 151."Before securing an audience with the Portuguese, Nzinga accepted the Catholic baptism. This was an act of political expediency that helped to establish Nzinga as the legitimate leader of Ndongo as supported by the Portuguese. Her brother died under suspicious circumstances in 1623 and by 1624 Nzinga subsequently seized power in Ndongo ruling from 1624-1663." Hettie V. Williams: "Queen Nzinga (Njinga Mbande)" in Encyclopedia of African American History Volume 3, 2010, pp. 82-84. A Rainha Ginga, por sua vez, associou-se aos controversos Imbangalas. A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais conquistou Luanda e Benguela em 1641 e firmou uma aliança com a Rainha Ginga e o Congo, entre outros. Após um período de isolamento no interior, em que os portugueses combateram rodeados contra a Rainha Ginga, os holandeses, o Congo, as tribos da Quissama, Salvador Correia de Sá restaurou Angola ao domínio português, em 1648. A Rainha Ginga assinou então a paz, em 1656 e assumiu uma postura de subordinação a Portugal, ao mesmo tempo que promoveu o Catolicismo no seu reino.Joseph C. Miller, "Nzinga of Matamba in a New Perspective" in The Journal of African History, Vol. 16, No. 2 (1975), pp. 201-216, p. 212. Os últimos 27 anos ficaram marcados pela derrota do Congo na Batalha de Ambuíla, a conquista do Dongo pelos portugueses e, por fim, a definitiva vassalização da Matamba, que para todos os efeitos encerrou as Guerras Angolanas.  

Estes conflitos, que alteraram radicalmente o equilíbrio de poder na região e marcaram-na profundamente, ficaram registadas principalmente na obra de António de Oliveira Cadornega, História Geral das Guerras Angolanas, uma narrativa épica em três volumes que segue o mesmo estilo das crónicas portuguesas da conquista da Índia e do Brasil."This was na epic narrative of the wars of conquest undertaken by the Portuguese against King N'Gola. Cadornega followed the model of Portuguese chronicles of Asian and Brazilian conquest." in Antonella Romano, Borbála Zsuzsanna Török, L. Kontler, Silvia Sebastiani: Negotiating Knowledge in Early Modern Empires: A Decentered View, 2014, Palgrave Macmillan.

Contexto Os portugueses alcançaram Angola em 1482, no reinado de D. João II, quando Diogo Cão subiu o Rio Congo e entrou em contacto com o Reino de Congo. A partir de então foram estabelecidas relações amigáveis entre os dois reinos e em 1491 o rei do Congo converteu-se ao Catolicismo, passando então o reino a ser frequentado por numerosos embaixadores, missionários e mercadores portugueses que se estabeleceram no país.

As relações entre os dois países permaneceram estáveis e em 1568 os portugueses ajudaram o rei D. Álvaro I a rechaçar uma revolta ou invasão dos jagas, o que lhes valeu elevada consideração por parte do rei congo.Ralph Delgado, História de Angola volume I, Banco de Angola, 1973-1978, pp. 260-261. Como forma de agradecimento, a partir de então o Congo pagou um quinto das conchas de zimbo pescadas na Ilha de Luanda como tributo a Portugal.Delgado, I, 1973-1978, p. 262.

A sul do Congo, o reino do Dongo procurara entrar em contacto directo com Portugal em 1518."Ndongo." in Appiah, Kwame Anthony & Gates Jr, Henry Louis: Encyclopedia of Africa, Oxford University Press, 2010, pp. 223-224. O reino do Dongo parece ter sido criado a partir do Congo e os reis do Congo reclamavam suzerania sobre o reino mas detinham pouco poder sobre o mesmo. Em 1520 os portugueses enviaram uma missão diplomática ao Dongo que não vingou mas em 1549 o Dongo enviou outra missão diplomática a Portugal e desta resultou o envio de Paulo Dias de Novais à cabeça de uma nova missão diplomática. Regressado à Europa, Paulo Dias obteve autorização do rei D. Sebastião para fundar uma colónia em Angola. O Dongo enviou outra embaixada a Lisboa em 1575 chefiada por Dom Pedro da Silva Manuel, um congo criado em Portugal.Sweet, James H., in Mancall, Peter C: The Atlantic World and Virginia, 1550-1624,The Omohundro Institute of Early American History and Culture and University of North Carolina Press, 2007, p. 208. Levou presentes de cobre, prata, pau-quicongo e escravos. Foi bem recebido e admitido na prestigiosa Ordem de Santiago, entre outras benesses que recebeu.

Em 1576 Paulo Dias de Novais fundou a cidade de Luanda e o seu objectivo era obter acesso às minas de prata que se dizia existir em Cambambe mas tinha ordens para seguir uma política de contactos bilaterais."Tinha por regimento que procedesse por via de paz e amizade" in Delgado, I 1973, p. 288. Firmou, por isso, tratados de comércio e de aliança militar com o angola ("rei") do Dongo, Ginga Angola Quilombo Quiacassenda. Paulo Dias ofereceu os seus serviços ao rei Quiacassenda e combateu várias vezes a favor do angola contra súbditos rebeldes."In 1575 Paulo Dias de Novais returned to Ndongo with a royal grant from Portugal to create a colony on the coast, south of the Kwanza. He offered his services to Ndongo and fought for Ndongo in several campaigns against rebels." in John K. Thornton: "Ndongo, Kingdom of" in Encyclopedia of African History, volume 1, 2005, Routledge, p. 1079. Em troca desta ajuda, o rei vendia aos portugueses os rebeldes, prisioneiros de guerra e súbditos condenados à morte por adultério e furto como escravos, auferindo assim grandes lucros. Pinto 2015, p. 263."In 1575 Paulo Dias de Novais returned to Ndongo with a royal grant from Portugal to create a colony on the coast, south of the Kwanza. He offered his services to Ndongo and fought for Ndongo in several campaigns against rebels." in John K. Thornton: "Ndongo, Kingdom of" in Encyclopedia of African History, volume 1, 2005, Routledge, p. 1079. Pinto, 205, p. 260.

Tão amistosas eram as relações com o Dongo que o angola pediu um embaixador para a sua capital de Cabassa e o donatário enviou-lhe Pero da Fonseca com uma comitiva ou guarda de 20 homens.Pinto, 2015, p. 267."Os Portugueses andavam seguros pelo Reino como se andassem em Portugal, não havendo quem levantasse os olhos para um europeu, por saberem a amizade dispensada, pelo rei, ao governador, que este retribuía com socorros e atenções; e a tal apogeu chegaram essas boas relações que Ngola Kiluangi, pedindo, a Paulo Dias, um capitão para a sua capital, de portugueses e crioulos de São Tomé, com o qual corressem no negócio da justiça, viu realizado o seu desejo, com o envio de Pedro da Fonseca, parente do governador, acompanhado por vinte homens." Delgado, I, 1973, p. 288.

As guerras do Dongo, 1579-1622 miniaturadaimagem|O reino do Dongo. Não obstante as boas relações de Paulo Dias de Novais com Quiacassenda, a fundação de Luanda foi mal vista pelos negociantes portugueses e são-tomenses que já viviam na região há muito. Alguns procuraram sabotar as relações entre os dois.Anthony Disney: "Portuguese Expansion, 1400-1800: Encounters, Negotiations and Interactions" in Diogo Ramada Curto, Francisco Bethencourt: Portuguese Oceanic Expansion, Cambridge University Press, 2007, p. 299.