O ataque do bando de Lampião a Sousa foi uma incursão realizada por um grupo de cangaceiros na cidade de Sousa, no sertão da Paraíba, em 27 de julho de 1924. A ação foi realizada por integrantes do bando de Lampião, juntamente com o cangaceiro paraibano Chico Pereira, e resultou em saques a estabelecimentos comerciais e residências da cidade.

O episódio é considerado um dos acontecimentos mais importantes da história do cangaço na Paraíba durante a década de 1920. Pesquisas acadêmicas apontam que o ataque esteve relacionado a conflitos de vingança existentes no sertão e teve como um de seus principais personagens Francisco Pereira Dantas, o Chico Pereira, natural da então Vila de Nazaré, atual município de Nazarezinho.

Contexto

Na década de 1920, o sertão nordestino era marcado por conflitos entre famílias, disputas políticas, relações de proteção e vingança e pela atuação de grupos de cangaceiros. Nesse contexto, conflitos inicialmente restritos a indivíduos ou famílias podiam envolver grupos armados e adquirir maiores proporções.

Chico Pereira havia ingressado no cangaço em meio a conflitos de vingança relacionados à morte de seu pai. Sua trajetória posterior passou a se relacionar com o bando de Lampião, que naquele período atuava em diferentes áreas do Nordeste.

Um dos acontecimentos que antecederam o ataque envolveu o comerciante conhecido como Chico Lopes. Segundo uma fonte da Academia de Letras dos Militares da Paraíba, em 12 de junho de 1924 Chico Lopes teria sido espancado a chicotadas por Otávio Mariz durante uma feira em Sousa. O episódio teria provocado um conflito de honra e vingança que posteriormente contribuiu para a organização do ataque.

A relação entre Chico Lopes e Chico Pereira é destacada nas fontes sobre o episódio. Segundo a mesma pesquisa, Chico Pereira teria decidido participar da ação em razão de sua proximidade com Lopes e de suas próprias relações de inimizade na região.

Preparação

Lampião não participou pessoalmente da invasão. Segundo a historiografia sobre o episódio, ele encontrava-se afastado da ação principal em razão de um ferimento no pé e autorizou que parte de seu grupo se dirigisse a Sousa.

O grupo reuniu-se na Fazenda Jacu, na região de Nazarezinho, antes de seguir em direção a Sousa. Entre os principais nomes associados à expedição estavam Antônio Ferreira, Levino Ferreira, Sabino Gomes e Chico Pereira.

Uma pesquisa baseada em documentos e relatos sobre o episódio aponta que o contingente policial de Sousa era reduzido. A cidade contava com aproximadamente dez soldados sob o comando de um sargento, posteriormente reforçados por uma volante policial comandada pelo tenente Salgado.

Apesar dos avisos sobre a movimentação dos cangaceiros, as forças policiais disponíveis não conseguiram impedir a entrada do grupo na cidade.

O ataque

Na madrugada de 27 de julho de 1924, o grupo deixou a Fazenda Jacu e dirigiu-se para Sousa. Segundo a narrativa analisada na pesquisa da Universidade Federal da Paraíba, os cangaceiros chegaram à cidade por volta das quatro horas da manhã.

Uma tradição historiográfica atribui ao grupo um contingente de aproximadamente 84 homens. Esse número aparece na obra Vingança, não, de Francisco Pereira da Nóbrega, filho de Chico Pereira, e em trabalhos posteriores que utilizaram o livro como fonte.

O principal alvo da ação era Otávio Mariz. Segundo as fontes sobre o episódio, os cangaceiros dirigiram-se à sua residência, mas Mariz conseguiu escapar antes de ser capturado. Com a fuga do principal alvo, a incursão transformou-se em uma ação de saque. Estabelecimentos comerciais e residências foram invadidos, e diversos bens foram levados pelos integrantes do grupo.

O juiz Archimedes Souto Maior

Outro episódio associado ao ataque envolve o juiz Archimedes Souto Maior, então magistrado da comarca de Sousa.

Segundo relatos posteriores, um grupo de cangaceiros dirigiu-se à residência do juiz e o retirou de casa. A memória regional afirma que ele foi submetido a humilhações públicas durante a passagem dos cangaceiros pela cidade.

A narrativa tradicional também afirma que Chico Pereira teria intervindo para impedir que o juiz fosse morto. Entretanto, detalhes desse episódio aparecem de maneira diferente nas fontes memorialísticas e historiográficas, razão pela qual a reconstrução exata dos acontecimentos permanece parcialmente controversa.

Resistência policial

A resistência das autoridades locais foi limitada. O destacamento policial encontrava-se em desvantagem numérica diante do grupo de cangaceiros e não conseguiu impedir a ocupação temporária da cidade.

O ataque demonstrou a capacidade dos grupos de cangaceiros de realizar incursões contra centros urbanos do sertão, especialmente em localidades onde as forças policiais eram reduzidas e os grupos criminosos possuíam conhecimento do território.

Saques

O comércio e diversas residências de Sousa foram saqueados durante a incursão. A dimensão exata dos prejuízos é difícil de estabelecer, pois as fontes apresentam valores diferentes e parte das informações foi preservada por meio da memória oral e de relatos publicados posteriormente.

O jornal oficial A União publicou posteriormente relatos segundo os quais o saque teria produzido prejuízos de grande dimensão para o comércio local.

Consequências

O ataque provocou forte repercussão política na Paraíba. A imprensa e setores políticos passaram a cobrar das autoridades estaduais medidas mais efetivas contra a atuação de Lampião e de outros grupos de cangaceiros.

O episódio também contribuiu para tornar a presença de Lampião na Paraíba uma questão de maior importância política. Pesquisas sobre o cangaço no estado consideram o ataque a Sousa um divisor de águas, pois aumentou a atenção da imprensa e das autoridades sobre a atuação do grupo no território paraibano.

O ataque também é associado ao enfraquecimento de determinadas relações de proteção entre Lampião e chefes políticos locais. Segundo estudos sobre o episódio, o coronel José Pereira de Lima, de Princesa Isabel, teria posteriormente rompido relações com Lampião.

Relação com Chico Pereira

O ataque possui importância particular na trajetória de Chico Pereira. Natural da Vila de Nazaré, atual Nazarezinho, ele participou da incursão juntamente com integrantes do grupo de Lampião.

A pesquisa acadêmica sobre o episódio interpreta a participação de Chico Pereira principalmente dentro da lógica da vingança. Dessa perspectiva, o cangaço funcionou como instrumento por meio do qual conflitos pessoais e familiares puderam adquirir dimensão militar e política.

A trajetória posterior de Chico Pereira continuou marcada por confrontos, perseguições policiais e novas ações armadas, até sua morte em 1928.

Historiografia

O ataque a Sousa foi objeto de diferentes interpretações ao longo do tempo. Uma das principais fontes memorialísticas é o livro Vingança, não, escrito por Francisco Pereira da Nóbrega, filho de Chico Pereira, publicado originalmente em 1960. A obra apresenta uma narrativa centrada na trajetória familiar e na vingança que teria levado Chico Pereira ao cangaço.

Pesquisas acadêmicas posteriores procuraram confrontar essa memória com jornais, documentos oficiais e outras fontes. Dessa maneira, o episódio passou a ser estudado não apenas como um acontecimento do cangaço, mas também como um exemplo das relações entre memória, violência, vingança, política local e poder no sertão paraibano.

Ver também

Cangaço Lampião Chico Pereira História da Paraíba Sousa (Paraíba) Coronelismo

Bibliografia

GUIMARÃES, Bruno Sérgio Bezerra Arnoud. Entre memória e história: repensando o ataque das tropas de Lampião a cidade de Sousa PB no ano de 1924. Universidade Federal de Campina Grande, 2018.

NÓBREGA, Francisco Pereira da. Vingança, não: depoimento sobre Chico Pereira e cangaceiros do Nordeste. João Pessoa: Ideia.

OLIVEIRA, Bismarck Martins de. Histórias do cangaço: o saque de Sousa Paraíba. Campina Grande: Impressos Adilson, 2009.

GADELHA, José de Abrantes. Sangue, Terra e Pó. Sousa: A União, 1983.

SARMENTO, Guerhansberger Tayllow Augusto. Nas redes das memórias: as múltiplas faces do cangaceiro Chico Pereira. Natal: Sebo Vermelho, 2017.

Categoria:Cangaço Categoria:História da Paraíba Categoria:Sousa (Paraíba)