Abu Anre ibne Alalá (), geralmente identificado como Zabane ibne Alalá ibne Amar Almazini Albáceri (; c. –), foi um leitor do Alcorão, gramático, filólogo e transmissor de poesia árabe. Estabelecido em Baçorá, tornou-se uma das principais figuras da vida intelectual da cidade e é tradicionalmente considerado um dos fundadores de sua escola filológica e gramatical. Sua atividade pertence a um período em que a leitura corânica, a gramática e a transmissão da antiga poesia árabe ainda constituíam campos estreitamente relacionados.

Como leitor do Alcorão, desenvolveu uma tradição própria que combinava elementos das escolas do Hejaz e do Iraque e que se tornou predominante em Baçorá. Sua leitura foi posteriormente incluída entre as sete leituras canônicas do Alcorão e difundiu-se por diversas regiões do mundo islâmico. Abu Anre exerceu influência sobre uma geração de estudiosos que desempenharia papel central no desenvolvimento da filologia árabe, entre os quais Alcalil ibne Amade, Alasmai, Abu Ubaida e .

Abu Anre também alcançou grande reputação por seus conhecimentos da língua, da poesia da Jailia e dos Dias dos Árabes. Recolheu diretamente entre os árabes material linguístico, poético e histórico e tornou-se uma autoridade na interpretação e avaliação da poesia antiga. Embora grande parte do material escrito que lhe é atribuído não tenha sobrevivido, seus conhecimentos foram transmitidos por discípulos e preservados em obras de filólogos e lexicógrafos posteriores. Essa atuação, juntamente com seus estudos gramaticais e corânicos, colocou-o entre os estudiosos que contribuíram para a consolidação da tradição filológica de Baçorá.

Vida e formação

Abu Anre ibne Alalá geralmente é identificado como Zabane ibne Alalá ibne Amar Almazini Albáceri. Seu nome próprio é objeto de divergência nas fontes, que lhe atribuem numerosas formas; entre elas, Zabane é considerada a mais provável. Pertencia ao ramo mazinita dos tamimitas, de onde deriva a nisba Almazini, e ficou conhecido como Albáceri por ter passado a maior parte da vida em Baçorá. A data e o local de seu nascimento também são incertos. A tradição mais difundida situa seu nascimento em Meca em 70 A.H. (689), embora sejam igualmente transmitidos os anos de 55 (675), 65 (685) e 68 (688), e algumas fontes indiquem Baçorá ou , no sul da Pérsia, como seu local de nascimento. As informações sobre sua infância e juventude são escassas e contraditórias. Segundo um relato atribuído ao próprio Abu Anre, quando tinha pouco mais de vinte anos acompanhou o pai em sua fuga do Iraque para o Iêmem, motivada pela perseguição dos agentes de Alhajaje ibne Iúçufe. Ambos teriam retornado a Baçorá ao receberem, no deserto iemenita, a notícia da morte de Alhajaje. Caso essa tradição seja correta, é possível que Abu Anre tenha passado a infância no Hejaz, estudado em Meca e Medina e posteriormente se estabelecido em Baçorá.

Sua formação abrangeu a leitura corânica, o hádice, a gramática, a língua e a literatura árabes. Estudou leitura do Alcorão com numerosos mestres do Hejaz e do Iraque, entre eles Mujaíde ibne Jabre, Saíde ibne Jubair, Atá ibne Abi Rabá, , , Ácime ibne Badala e Alhaçane de Baçorá. Blachère considera que sua formação como leitor começou sobretudo no Hejaz e foi posteriormente enriquecida no Iraque, onde entrou em contato com as tradições de leitura e com a atividade gramatical desenvolvida em Baçorá. Depois de se estabelecer em Baçorá, Abu Anre raramente deixou a cidade. Blachère menciona uma peregrinação realizada já em idade avançada e sua viagem final a Cufa, onde morreu. Altıkulaç situa sua morte em 154 A.H. (771), embora registre também as datas de 147 (764), 148 (765), 155 (772), 156 (773), 157 (774) e 159 (776). Segundo outra tradição, pouco antes de morrer teria viajado a Damasco para solicitar auxílio ao governador Abedal Uabe ibne Ibraim, falecendo durante o regresso ou depois de chegar a Cufa.

Leitura do Alcorão e ensino

Abu Anre desenvolveu um sistema próprio de leitura do Alcorão no qual se combinaram elementos das tradições do Hejaz e do Iraque. Sua leitura tornou-se predominante em Baçorá, onde suplantou sistemas anteriormente difundidos, particularmente o atribuído a Alhaçane de Baçorá, e foi posteriormente incluída entre as sete leituras canônicas do Alcorão. Segundo , Abu Anre evitava afetação na recitação e, dentro dos limites considerados admissíveis, favorecia uma leitura simples e pouco exagerada. Entre as características de seu sistema estavam diferentes formas de imala, substituição de determinadas hâmezas e o chamado idghām al-kabīr, assimilação que constitui uma das características distintivas de sua leitura. A leitura de Abu Anre alcançou ampla difusão. Já em seu tempo, a maioria dos habitantes de Baçorá a teria adotado, e autores posteriores afirmaram que ela continuou predominante na cidade durante séculos. Mais tarde difundiu-se também por regiões como Síria, Hejaz, Iêmem e Egito, embora gradualmente tenha cedido espaço à leitura de Ácime transmitida por . Sua tradição foi preservada sobretudo por intermédio de seus discípulos e, posteriormente, pelos transmissores e . Abu Anre exerceu influência sobre uma geração decisiva de estudiosos de Baçorá. Entre aqueles que aprenderam ou transmitiram conhecimentos seus figuram , Alcalil ibne Amade, Alasmai, Abu Ubaida e Sibauai, além de numerosos leitores e transmissores de hádice. Alcalil estudou gramática com ele, enquanto Alasmai e Abu Ubaida se beneficiaram de seus conhecimentos de língua, literatura e poesia. Blachère considera que sua geração pertence ainda a um estágio em que é artificial separar rigidamente as atividades do leitor do Alcorão, do gramático e do transmissor de poesia, funções que em Abu Anre aparecem estreitamente associadas.

Língua, poesia e tradição filológica

A reputação de Abu Anre ultrapassava o domínio das leituras corânicas. Abu Ubaida considerava-o um dos maiores conhecedores das palavras raras da língua árabe, do Alcorão, da poesia, dos Dias dos Árabes e da língua e literatura árabes, enquanto Ibne Cutaiba afirmava que, embora fosse mestre na leitura corânica, sua competência nas palavras raras e na poesia era ainda maior. Sua importância para a filologia árabe relacionava-se particularmente ao estudo da Jailia: recolhia poesia e relatos junto a árabes cuja língua considerava fidedigna e, segundo Alasmai, não utilizava versos do período islâmico como prova linguística. Blachère caracteriza-o como um colecionador entusiástico de poesia arcaica e dos relatos dos Dias dos Árabes. Segundo uma tradição transmitida por Abu Ubaida, Abu Anre teria reunido material suficiente para encher um aposento inteiro de livros, formado a partir do que recolhera entre árabes considerados linguisticamente fidedignos. Em determinado momento, durante um período de intensa devoção religiosa, teria queimado essa coleção; posteriormente, arrependido, voltou aos estudos e passou a transmitir aos discípulos aquilo que conservara na memória. Blachère também registra o episódio, mas observa que não há meios de verificar sua historicidade e enfatiza que Abu Anre continuou depois a transmitir oralmente o material poético que conservara de memória.

A interpretação de Blachère de que a destruição dos livros teria ocorrido quando Abu Anre se dedicou especificamente à leitura do Alcorão é rejeitada por Altıkulaç, que entende a expressão da fonte como referência genérica à dedicação à devoção religiosa. Sua autoridade como transmissor e crítico de poesia é evidenciada pelos numerosos juízos atribuídos a ele em obras posteriores. Seu conhecimento do vocabulário e dos antigos usos linguísticos também foi repetidamente citado por lexicógrafos, embora parte considerável de seus ensinamentos tenha sido preservada apenas indiretamente pelos discípulos. Para Blachère, Abu Anre ocupa posição dominante na vida intelectual de Baçorá no momento em que se formava a geração de estudiosos representada por Alcalil, Alasmai e Abu Ubaida, que se tornariam mestres da escola filológica e gramatical da cidade. Além dessas atividades, Abu Anre transmitiu hádices, embora sua produção nesse campo tenha sido relativamente limitada. Autoridades posteriores divergiram sobre sua avaliação como transmissor: considerou-o confiável, enquanto Abu Hatime Arrazi adotou uma avaliação mais moderada; segundo Adaabi, transmitiu poucos hádices e não figura nos Seis Livros, enquanto Maomé ibne Hibane estimou em cerca de cinquenta o número de tradições transmitidas por ele.

Obras

A tradição segundo a qual Abu Anre teria destruído um aposento inteiro de livros sugere que sua produção escrita pode ter sido consideravelmente maior do que o conjunto atualmente conhecido. Embora se tenha afirmado que não deixou nenhuma obra escrita, diversas composições são atribuídas a ele pelas fontes. O Kitāb Marsūm al-Muṣḥaf, dedicado à grafia do Alcorão, foi posteriormente abreviado por sob o título Rusūm al-Muṣḥaf al-Karīm, cuja versão manuscrita é conservada na . Também lhe são atribuídos o Sharḥ Dīwān al-Khirniq, comentário ao divã de , o Kitāb al-Idghām al-kabīr, o al-Waqf wa-l-ibtidāʾ, o Taqyīd al-amthila, o Kitāb al-Amthāl e o Kitāb al-Qirāʾāt. Ibne Anadim menciona ainda uma obra intitulada Kitāb al-Nawādir. Parte desses trabalhos não chegou à atualidade ou é conhecida apenas por referências e citações de autores posteriores.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VII Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida