Hamade Arrauia (), de nome completo Abu Alcácime Hamade ibne Abi Laila Sabur ibne Almubaraque Adailami Alcufi (; 694–695 – c. 772–777), foi um transmissor, colecionador e conhecedor de poesia árabe antiga, ativo sobretudo em Cufa durante os períodos omíada e abássida. De origem iraniana, tornou-se célebre pela quantidade de poesia da Jailia e do início do período islâmico que conservava de memória, circunstância que lhe valeu o epíteto Arrauia (al-Rāwiya, "o grande transmissor"). Seus conhecimentos abrangiam ainda genealogias, relatos tradicionais e os Dias dos Árabes, e lhe proporcionaram acesso à corte de diversos califas omíadas.
Hamade ocupou posição importante na preservação e transmissão da antiga poesia árabe numa época em que grande parte desse patrimônio ainda circulava oralmente. Entre os estudiosos que receberam ou transmitiram material seu figuraram , e Alasmai. É também tradicionalmente associado à reunião das sete grandes odes posteriormente conhecidas como Muallaqat, embora não seja possível determinar se foi efetivamente o primeiro a reuni-las. Parte da poesia que transmitiu circulou igualmente por escrito e foi utilizada por filólogos posteriores, mas são escassos os testemunhos sobre sua própria atividade literária escrita.
Sua reputação como transmissor tornou-se, contudo, objeto de intensa controvérsia entre as gerações posteriores de filólogos. Embora até seus adversários reconhecessem a extensão de seus conhecimentos poéticos, Hamade foi acusado de alterar poemas antigos e de introduzir neles versos de sua própria composição. A avaliação dessas acusações é dificultada pelas rivalidades pessoais, políticas e, posteriormente, pela oposição entre as escolas de Baçorá e Cufa, que contribuíram para a formação de sua reputação. Apesar dessas controvérsias, a quantidade de material antigo transmitida direta ou indiretamente por Hamade fez dele uma figura central na história da conservação e da transmissão da poesia árabe pré-islâmica.
Vida
Hamade Arrauia nasceu em Cufa em 75 A.H. (694–695) e ali foi criado. Era de origem iraniana. Seu pai, cujo nome é transmitido como Sabur, Maiçara ou Hurmuz, procedia do Dailão e havia sido levado como cativo para Cufa. As fontes divergem sobre a relação de clientela da família, associando-a a Miquenafe ibne Zaíde Alcail Atai, aos xaibanitas ou aos becritas. A origem paterna explica a nisba Adailami, enquanto Alcufi deriva de sua vinculação a Cufa. Na juventude, Hamade conviveu com e , seus homônimos e companheiros nos círculos boêmios de Cufa, nos quais se realizavam reuniões acompanhadas de vinho e recitação de poesia. Os três foram acusados de zandaqa em razão de seu modo de vida. Uma tradição afirma ainda que Hamade participou de um grupo de ladrões e, entre os objetos furtados de uma casa, encontrou um caderno contendo poemas de poetas dos ançares. Depois de memorizar seu conteúdo, teria passado a dedicar-se inteiramente à poesia. Fück caracteriza-o não como um erudito sistemático, mas como alguém que cultivava a poesia como parte dos prazeres da vida e que não demonstrava grande preocupação com questões de autoria e autenticidade.
Hamade manteve contato com numerosos poetas, entre eles , , , , Alfarasdaque e outros, e realizou viagens pelo deserto, chegando à Síria. O contato com os poetas e suas viagens permitiram-lhe adquirir vastos conhecimentos de poesia, genealogia, história, relatos tradicionais e dos Dias dos Árabes. Esses conhecimentos lhe proporcionaram o favor dos califas omíadas, particularmente e , bem como de outros dignitários da dinastia. Fück, contudo, considera cronologicamente inconsistente a tradição segundo a qual Hamade já teria desfrutado do favor de Iázide II. Durante o califado de Hixame ibne Abedal Maleque , irmão de Iázide II e pouco favorável a Hamade em razão de sua ligação com o califa anterior, o transmissor retirou-se para o Iraque. Posteriormente, mediante convite transmitido pelo governador ou por Calide Alcáceri, voltou à corte de Hixame.
Ali participou de reuniões nas quais expunha seus conhecimentos sobre os relatos, genealogias e Dias dos Árabes da Jailia. A queda do Califado Omíada afetou profundamente sua posição. Mais tarde apresentou-se ao califa abássida Almançor , mas, decepcionado com o tratamento ou a recompensa que recebeu, regressou a Cufa. As fontes divergem sobre a data de sua morte. Fück considera aceitáveis 155 A.H. (772) ou 156 (773) e rejeita as datas posteriores transmitidas pelas fontes. Tüccar registra datas entre 155 e 158 A.H. (772–775), mas também a tradição segundo a qual Hamade alcançou os primeiros anos do reinado de Almadi e morreu provavelmente em 160 (776–777) ou pouco depois. Após sua morte, teria composto uma elegia em sua homenagem.
Transmissão da poesia
Hamade tornou-se célebre pela quantidade de poesia da Jailia e do período islâmico que conservava de memória, circunstância que lhe valeu o epíteto Arrauia (al-Rāwiya, "o grande transmissor"). Segundo uma tradição, quando Alualide II lhe perguntou como adquirira o título, Hamade afirmou conhecer os poemas de numerosos autores e ser capaz de identificar a autoria de qualquer poema que lhe fosse recitado. Declarou ainda que poderia recitar, para cada letra do alfabeto, cem longas cássidas da Jailia, sem contar as composições breves. Teria então recitado cássidas diante do califa ou de alguém encarregado de ouvi-lo, recebendo uma recompensa de 100 mil dirrãs. Sua atividade de coleta e transmissão baseava-se sobretudo na memória. Tüccar situa Hamade entre os primeiros e mais importantes representantes dos grandes transmissores que preservavam extensos repertórios poéticos antes da generalização do registro escrito da literatura árabe. Entre seus discípulos e transmissores figuraram , e Alasmai. Este último devia a Hamade parte considerável do material que transmitiu, inclusive poemas de Inru Alcaice ibne Hujer preservados em seu divã e na Asmaiyyat.
Hamade é tradicionalmente associado à primeira reunião das Muallaqat. Segundo uma tradição citada por Fück a partir de Anaás, teria sido ele quem reuniu as sete longas odes posteriormente conhecidas coletivamente por esse nome. Tüccar adota maior cautela: não considera possível determinar se Hamade foi efetivamente o primeiro a reuni-las, se outra pessoa já o havia feito anteriormente, quem lhes atribuiu a designação pela qual se tornaram conhecidas ou quem fixou seu número. O que considera possível afirmar é que Hamade transmitiu as Muallaqat juntamente com outras composições da antiga poesia árabe e que suas transmissões foram pelo menos uma das fontes empregadas na posterior formação da coleção. Há também indícios de que parte do material transmitido por Hamade circulou por escrito. Abu Hatime Assijistani citava poemas de Alhutaia a partir de um livro atribuído a Hamade, embora principalmente para censurá-lo pela inclusão de versos considerados espúrios. No divã de Cabe ibne Zuair, uma composição corresponde a versos que Ibne Alcalbi declarou ter copiado de um manuscrito denominado "livro de Hamade Arrauia". Fück observa, contudo, que são escassas as informações disponíveis sobre a atividade literária escrita de Hamade.
Autenticidade e controvérsias
A confiabilidade de Hamade como transmissor tornou-se objeto de intensa controvérsia entre os filólogos posteriores. Segundo , Hamade nada sabia de gramática, prosódia ou correção linguística. Almufadal Adabi, embora reconhecesse a extensão de seus conhecimentos, acusava-o de ter corrompido irremediavelmente a tradição da poesia beduína por meio de falsificações habilidosas. Segundo a explicação atribuída a Almufadal, Hamade conhecia suficientemente a poesia árabe, os estilos individuais dos poetas e suas convenções para compor versos semelhantes aos de determinado autor e inseri-los em suas obras; transmitidos posteriormente por outras pessoas, esses versos teriam acabado misturados ao corpus da poesia antiga. Tüccar admite que transmissores como Hamade podem ter introduzido alterações nos poemas que transmitiam e até atribuído a antigos poetas versos compostos por eles próprios, mas rejeita a ideia de que fossem capazes de inventar personalidades poéticas inteiramente distintas e produzir em nome delas obras-primas dotadas de estilos próprios. Também ressalta fatores que recomendam cautela diante das acusações contra Hamade. A rivalidade entre ele e Almufadal teria adquirido dimensão política e pessoal, agravada pelos discípulos deste último. Enquanto Almufadal se destacava sobretudo pela reputação de transmissor confiável, Hamade seria considerado superior em conhecimentos da língua árabe, poesia, recursos literários e poetas. A proximidade de Hamade com os omíadas e a inclinação de Almufadal pelos abássidas teriam contribuído para aprofundar essa hostilidade.
A rivalidade posterior entre Baçorá e Cufa também interferiu na formação da reputação de Hamade. Fück observa que a disputa entre as duas escolas ainda não existia durante sua vida, mas que a geração seguinte passou a denunciá-lo nesse contexto. Tüccar chama atenção para a hostilidade dos estudiosos baçoranos contra seus rivais cufanos e menciona, entre outros exemplos, as críticas de à língua dos estudiosos de Cufa e a afirmação de Abu Hatime Assijistani de que entre estes não havia quem conhecesse adequadamente o Alcorão e a língua árabe. Nesse mesmo contexto, Abu Ubaida atribuiu a Calafe Alamar a afirmação de que entregava a Hamade poemas que ele próprio falsificara e recebia em troca poemas autênticos, sendo as falsificações aceitas por Hamade. Tüccar considera essa tradição provavelmente produto das rivalidades e do partidarismo entre as escolas. A relação com Alasmai, embora também marcada pela rivalidade entre Baçorá e Cufa, não chegou ao mesmo grau de hostilidade, e o próprio Alasmai transmitiu quantidade substancial de poesia recebida de Hamade. Da mesma forma, Abu Anre Axaibani registrou que Abu Anre ibne Alalá, apesar de bacrense, e Hamade eram amigos e falavam favoravelmente um do outro, circunstância que Tüccar considera significativa para a avaliação das acusações posteriores.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Cufa Categoria:Dailamitas Categoria:Iranianos do século VII Categoria:Iranianos do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida